ELE NÃO SABE

“Não sei, não sei”, ele olha a parede à sua frente e o branco que enxerga também é o branco que vê dentro de si, nada mais, ele não sabe e também não sabe se quer saber, só o que sabe é que ela apareceu como a melhor coisa do mundo, também como a pior coisa do mundo, todo o seu próprio mundo agora em suspenso, passo preso em cima da corda bamba, pronto para seguir adiante e cair em frente os cem metros de delícia e terror, ele não sabe, mas sabe que vai dar o primeiro passo porque ela é a melhor coisa que lhe apareceu, e dará o segundo porque ela é a pior, ´não sei, não sei´ , pensa e a parede em sua frente parece crescer enquanto ele bebe outro gole deste vinho barato que comprou, melhor assim, ficará bêbado mais rápido, bêbado talvez fique mais sábio ou sofra menos, bêbado sim saberia que ela só pode ser a pior coisa que lhe apareceu neste mundo, e se atiraria à ela como se fosse a melhor, com a sede que o vinho lhe provoca, também é sede o que lhe chega quando fecha os olhos e tenta esquecer, mas só o que consegue é pensar no mal que ela pode lhe fazer, no bem que ela está lhe fazendo, hora de pensar, porque não sabe, ´não sei, não sei”, só porque ela tinha aparecido na hora errada e talvez seja a mais certa de todas as horas, o coração e os temores não têm horário marcado, há que se estar preparado mesmo quando não se está, ele sentiu isso quando ela disse que estava assustada com tudo e ele respondeu que também estava, mas no segundo seguinte ela sorriu e balançou os cabelos numa espécie de desdém ensaiado, tinha nos olhos o brilho da dúvida enquanto dizia que estava assustada, naquela hora ele percebeu que o primeiro passo na corda bamba seria a melhor coisa do mundo, o segundo seria o pior, a queda valeria a pena, mas não disse nada e agora não sabe, `não sei, não sei”, e no entanto há coisas que nem precisam ser ditas para serem entendidas, mão sobre mão e um desejo profundo, planos de libertar o mundo pela redenção dos corpos, mas nada aconteceu, o medo talvez não fosse o bastante, e agora ele não sabe, sabe sim, “não sei, não sei”, mas a verdade é que sabe mesmo que já esteja um pouco embriagado, talvez seja isso justamente o que o faça saber, sabe mas o seu pudor de homem o impede de gritar ´eu sei, eu sei´, porque a boca sussurra que não sabe e o peito grita inteiro que sabe, sabe sim, porque ela, mesmo sendo a pior coisa que pode lhe acontecer na vida, é a melhor coisa que está lhe acontecendo. Ele sabe.

Outros Contos


O BIGODE

UM DIA ENSOLARADO DE PRIMAVERA

O AUMENTO (versão 3)

NÓS PRECISAMOS CONVERSAR

A CHUVA SEMPRE

SÃO LOURENÇO

O BILHETE – II

PLÁSTICO

A CAMISINHA

PAPAI SABE TUDO

AS TRUFAS

AQUELE SILÊNCIO

OS GÊMEOS, AS GÊMEAS

O CHORO AO TELEFONE

BURRO DA PÁSCOA

O MEU FUTURO

JOGANDO BOLA NO CÉU

O DIA DO PAI

EMÍLIA AO TELEFONE

AS ESCOLHAS

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais