UMA ANGÚSTIA, SABE?

Rodrigo dormia o seu sono justo quando, às duas e meia da manhã, o telefone tocou. Ele atendeu logo, um pouco aturdido.

“Não desligue o telefone, por favor!” – do outro lado da linha, a voz feminina era imperiosa e urgente, e Rodrigo resolveu cumprir a ordem docemente dada.

“Mas quem está falando?” – ele perguntou.

“Tu não me conheces, nem eu te conheço. Ao menos, acho eu. Liguei a esmo, de olhos fechados, porque precisava ouvir a voz de alguém. Alguém desconhecido, com quem eu possa me abrir de verdade, sem medo de cobranças.”

“Mas por quê?” – ele não entendia.

“É esta angústia, sabe? Esta angústia que entra no peito, que vem não se sabe de onde e chega sem avisar nas noites mais solitárias, entende?...

“Não muito...” – Rodrigo não compreendia, ainda limpava os olhos surpresos de sono.

“Eu também não entendo.” – disse a mulher. – “Mas ela chega, simplesmente. Não existe nenhuma tristeza definida, nenhum mal maior. Ela acontece. Deve existir um motivo, mas nem sei. E é uma angústia, sabe, que se instala e derruba todo o resto.” – e ela começou a falar desta tristeza sem nome que, de repente, aparecia. Falou, falou, certo desespero manso no calor de sua voz. Falou sem esperar resposta, apenas querendo ser ouvida.

Quinze minutos durou a sua fala. Quando acabou, ainda sem desejo de qualquer resposta, ela respirou fundo, como se houvesse aberto em seu peito a chance de respirar. Depois de um silêncio, a mulher agradeceu e disse que agora iria desligar.

“Mas, espera!” – disse ele. – “E o teu nome, qual é? Me diz ao menos isso!...”

“Não, o meu nome pouco importa.” – a mulher respondeu, depois de um tempo. – “E muito obrigado, novamente. Muito obrigado mesmo.” – e desligou.

Rodrigo permaneceu um tempo com o telefone na mão, tentando entender o que havia acontecido. Depois, como nada e nem ninguém mudasse algo naquela madrugada que ainda ia pela metade, resolveu voltar à cama.

Mas não conseguiu dormir - uma angústia nova e desavisada lhe enchia o peito. Uma angústia sem nome, sabe?


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