O PALHAÇO NO SINAL

Paro no semáforo, pensamento disperso na próxima reunião ou coisa parecida, e de repente o palhaço salta a frente do meu carro, acesos os seus malabares de fogo.

Sua figura é uma tristeza alegre, pobreza sem reuniões. Não é preciso prestar muita atenção para perceber os rasgões indisfarçados de suas meias, a sujeira encardida dos tênis que não lhe parecem servis nos pés, o colorido desbotado da roupa circense que foi montando com o critério único da possibilidade - as calças emprestadas do vizinho, a camisa vermelha herdada de um pai maior, o colete dourado surrupiado de uma loja, o chapéu coco que não tem outra serventia a não ser a de cair no chão. A maquiagem em seu rosto não é mais do que uma lembrança de cor, jeito de suor mal escorrido. Mas o sorriso.

Ele atira para cima os três machetes em fogo, acendidos ainda há pouco com uma garrafinha de álcool, e estes voam desajeitados por uns segundos breves, não tardam a cair no chão.

O palhaço olha para mim e para os outros motoristas e, ainda que haja em seus olhos um pequeno laivo de vergonha, seu sorriso segue sendo uma alegria sem culpa. Ele junta do solo os malabares em chamas e inicia novamente os seus truques de equilíbrio, mas por pouco tempo: são dois ou três novos voos rápidos, desengonçados, e daí a pouco já estão todos novamente no chão.

Ele dá outro sorriso, como se nada houvesse acontecido, e recolhe os machetes, um dos quais já está apagado. Mais uns poucos malabarismos e ele para; o sinal vai abrir em breve e é hora de recolher os poucos trocados que um ou outro motorista irá lhe estender.

Quando ele chega em meu carro, percebo que não pode ter mais que treze anos. É um menino e sorri para mim, o sorriso cheio de dentes faltantes, enquanto pega as moedas que lhe estendo.

"Desculpa os erros aí, tio." - ele me diz - "é que sou novo na profissão."


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