E AGORA ELE DISSE QUE VAI FICAR COM ELA

Ela está feliz, feliz.

Liga o rádio do apartamento num volume mais alto e escuta a música sem se importar com os vizinhos, enquanto espana os móveis, passa um pano nos armários, lava a louça e as panelas que há horas enchiam a pia e o fogão. E dentro de si, o dia é ensolarado.

Só porque ele disse que vai ficar com ela. Simples, assim: disse que agora está tudo certo, que vai conseguir ficar com ela. Vou conseguir, ele tinha dito – e ela, feliz, sem saber nem o que responder.

Porque isso talvez signifique que chega destes encontros furtivos, destas fugas de ambos à meia-tarde, destas vindas rápidas dele ao apartamento, os lençóis desarrumados em minutos. Significa um peso que vai embora, o fim de um segredo que ela já não sabe o quanto deseja.

Feliz, feliz.

Ele disse que vai ficar come al. Trouxe-lhe uma caixa de bombons, um punhado de pêssegos – que colocaram, intocados, no cestinho plástico do centro da mesa – e uma garrafa de vinho branco. E esteve carinhoso como nunca. Quando já estava saindo, falou que agora iria conseguir ficar com ela. Disse de uma vez só, como se estivesse se livrando de um peso e sem maiores explicações, e logo foi embora, levando dois bombons no bolso. Mas o importante estava dito, não carecia de maiores adendos: ele dissera que agora ficaria com ela.

Uma escolha. Finalmente ele conseguira, só podia ser. A mulher de quem não conseguia se divorciar, porque estava doente do coração e não podia sofrer qualquer baque ou emoção mais forte, provavelmente agora melhorara, ficara boa. Ele sempre dissera que tão logo isso acontecesse, iria se separar – e então conseguiriam ficar juntos.

Das outras vezes que prometera, não conseguia fazê-lo, por uma ou outra razão – ou a mulher havia piorado novamente, ou estavam com problemas na família, ou estavam mandando gente embora na fábrica e ele não conseguia se concentrar no assunto, ou os filhos ou...

Mas agora é diferente. Ela percebeu na voz dele. E ele não é de empurrar as coisas com a barriga.

Sabe disso, porque o conhece. Afinal, estão juntos há cinco anos.


Outros Contos


PAIXÃO

PRESENTE

A TRAGÉDIA

A VISITA DAS SETE MENINAS

O PRIMEIRO AMOR A GENTE NUNCA ESQUECE

AS PRIMAVERAS

A VIDA PASSA AO LADO

A FAMÍLIA

O CASAL NO RESTAURANTE

O LEITOR MANDA

AS QUATRO

O CASACO DE LISTRAS AZUIS

ROSAURA

SE EU TIVESSE VINTE ANOS A MENOS

O PASSO EM DIREÇÃO

JANICE QUANDO CHEGOU

EDUARDO, QUE ESPALHA ESTRELAS

O GRITO (OS GRITOS)

TRINTA ANOS E ESTA FOTO

QUINZE ANOS

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais