GRITO

Ele dormia um sono profundo quando escutou o grito. Grito lancinante, de pavor escancarado, o grito de alguém que sofria de verdade. Abriu os olhos em susto, sem saber o que estava acontecendo – o lamento ainda se escutava forte, imperioso - e olhou o relógio: duas e meia da manhã. Só então acordou por inteiro, o peito em sobressalto, e olhou ao redor na escuridão do seu quarto: o uivo humano estava lá embaixo e já começava a diminuir.

No meio de seu nervosismo, tentou ordenar um pouco as idéias antes de levantar. Enfim decidiu: vou ver o que é que está acontecendo. Um grito apavorado e apavorador - a alma ainda assustada.

Quando abriu a janela do apartamento, enxergou lá embaixo o homem deitado no canto da rua, um corpo estendido no asfalto e a cabeça apoiada na faixa amarela do cordão, que já se tingia de vermelho. Constatou que era um homem jovem: a barba por fazer não escondia a pouca idade que parecia se acabar naquela hora. À luz esbranquiçada do poste, era possível perceber a mancha rubra que empastelava os cabelos e começava a sujar a calçada.

Firmou a visão e pareceu-lhe que o homem, lá embaixo, se mexia. Mas foi apenas um breve de dúvida, não era nada disso: o movimento era apenas o bruxuleio dos insetos ao redor da luz do poste.

Este homem está vivo ou morto? - pensou ele, do alto de sua janela confortável.

Espreitou ao longe, na escuridão da madrugada, a ver se conseguia enxergar alguém, os passos fugitivos de quem fosse o causador daquele homem deitado, mas não: não havia ninguém, a rua daquela noite parecia um deserto tranquilo. Só o grito quebrara a serenidade da noite.

O que fazer, perguntou-se.

Olhou para o alto, para os lados; não havia outra janela aberta. Em todos os edifícios: nada. Parecia que mais ninguém havia escutado o uivo triste e último daquele corpo que agora se avermelhava dois andares abaixo, estendido no abandono noturno da calçada. Ninguém mais – mas era impossível, ele sabia que era impossível. Num prédio próximo, pareceu perceber a luz de uma lâmpada que se apagava.

Ninguém nas sacadas, ninguém nas janelas, ninguém na rua – a não ser aquele corpo que berrara ainda há pouco o seu desespero final e agora era voz que não existia mais.

Ninguém.

Então fechou a janela, apagou a luz.

E voltou para a cama, a tentar dormir novamente.


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