CINQUENTA

Ela olha sua imagem no espelho e ele não lhe devolve meio século. Há marcas, sim – quem aos cinqüenta anos não as terá? Mas são marcas belas, que refletem a intensidade clara desta vida em que ainda é aprendiz e que, pensa ela, tanto ainda lhe poderá trazer.

Permite-se este instante em frente ao espelho, descansando uns segundos da correria dos dias, apenas para dar-se conta, uma vez mais, que a beleza da mulher de cinqüenta não é menor e nem maior do que a beleza da mulher de vinte: é apenas outra. Há uma espécie de altivez agerata nestes traços que atravessam tranqüilos a passagem do tempo, e que só empresta ao seu corpo uma beleza ainda mais densa. Uma beleza que se transforma com os dias, sem que dela nada se perca. E saber-se bonita é algo que se aprende aos poucos.

Aproxima o rosto do espelho e sorri: o brilho de seus olhos ainda é o brilho de seus olhos de menina. E o do sorriso, também. A beleza talvez esteja aí – o brilho.

Cinqüenta anos hoje, ela pensa – ainda não é tempo de inventariar o tempo.

Mas já é possível olhar um pouco para trás (sem nunca deixar de olhar para a frente), iluminar algo do passado com a calidez de seus olhos verdes. E então é uma felicidade saber que há muito mais acertos do que erros, vitórias do que derrotas. Há perdas pelo caminho, que foram e seguem marcadas em seu coração, mas há tantos ganhos que só o que pode dizer é que sua vida é feliz. Seus dias são feitos mais por sorrisos do que por lágrimas.

E o melhor: a felicidade é compartida. Olha para os lados e vê a filharada que já segue sua vida pelo mundo, bem e forte; os netos que vem chegando com doçura; o companheiro que a ama; os tantos colegas e amigos que com ela celebram a vida, numa festa que não se resume à data de aniversário.

Porque a vida, ela sabe, é algo que merece ser celebrado todos os dias.


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