DONA LIDIANE

- Bom dia, dona Lidiane.

- Bom dia, doutor Decio.

É sempre assim.

Doutor Decio chega pela manhã, impecável num charme cinquentão que parece se renovar a cada noite, deseja o bom dia protocolar à Lidiane e, depois de perguntar à secretária se há algum telefonema ou recado importante, anda, com seriedade, à sala em que trabalha. Às vezes, naqueles breves passos, dirige à secretária um sorriso bem educado - mas nunca mais do que isso.

E Lidiane, vinte belos anos recém completados, suspira à cada passagem do chefe.

Nunca, algum pedido para que ela fique até um pouco mais tarde a fim de terminar qualquer trabalho. Nunca, a ordem para acompanhá-lo num jantar com clientes. Nunca, aquelas cartas ditadas como em filmes ou novelas. Nunca, um roçar em seu braço – ainda que acidental. Nunca, uma insinuação. Nunca, um comentário mais malicioso sobre a minissaia que Lidiane às vezes veste.

Nunca nada.

Lidiane é bela, querida, inteligente. Todos os colegas do escritório já a convidaram para sair - e a todos, com cortesia, ela disse que não. Todos, menos o único por quem gostaria de ser convidada. O único que a chama de dona Lidiane, e não apenas de Lidiane.

Mas o doutor Decio está lá, absorto em seus problemas e questões profissionais, imerso em contratos e telefonemas, envolvido com grandes vendas e negócios, e não enxerga a pequena secretária que, dia após dia, se consome numa paixão quase invisível. Mas que nem por isso deixa de se renovar a cada manhã, sempre que o doutor Decio chega e deseja um cortês bom dia à secretária.

Um tormento. Tormento que se repete todos os dias.

Talvez eu deva pedir demissão, pensa Lidiane.


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