VINTE E DOIS

Na sexta-feira, xinguei meu chefe. Chamei ele de tudo quanto é palavrão, vomitei o que eu tinha entalado na garganta há tempos. Disse que ele é um bocó, um frouxo, um cagão, um cara que usa o cargo só para pisotear nos mais fracos, que explora a gente o dia inteiro, grita o tempo todo, mas quando chega em casa só sabe piar fino na frente da mulher. Eu xingando e ele ali, parado, sem responder nada, acho que meio sem se dar conta do que tava acontecendo. Quando terminei de falar, nem dei tempo para ele responder: virei as costas e fui embora.

Aí, quando saí do serviço, fui tomar uma e comer um pastel. Mas o portuga do boteco me serviu uma cachaça batizada, como sempre. E o pastel era mais vento do que carne. Seguido é assim, eu que nunca reclamo. Mas ontem não deu para segurar. Reclamei logo e ele não gostou: eu que fosse beber em outro lugar, me disse o português. Atirei a cachaça no balcão e falei que ele podia enfiar o pastel onde ele quisesse. E me mandei. Nem paguei a cachaça e o pastel.

No ônibus, a mesma esculhambação de sempre. Um aperto, aquela tralha velha lotada de gente, o cobrador pedindo pra todo mundo dar um passinho à frente. Me invoquei, já não vou muito com a cara daquele cobrador. Xinguei o homem, perguntei porque é que ele não mandava a mãe dele dar um passinho à frente. Claro que ele me chamou para briga. Mandei ele tomar naquele lugar e desci pela porta de trás. Na descida, ainda meti uma pedrada no vidro do ônibus. Acho que machucou gente, mas nem vi: saí correndo.

Cheguei em casa e minha mulher com a mesma lenga-lenga de todos os dias. Reclamando, reclamando, parece que não sabe fazer outra coisa. Aí eu resolvi descascar a bruxa, dizer tudo o que eu tinha engasgado há tempo na garganta. Até da celulite dela eu falei. Ela começou a chorar e aquilo me irritou ainda mais. Pra não tacar a mão nela, resolvi sair fora. Dei um chute no cachorro e me mandei pro bar lá perto de casa.

A cerveja tava quente, a cana era de penúltima, mas olhei o relógio e resolvi não reclamar: nove da noite, faltavam no máximo três horas pro mundo acabar. E me emborrachei mesmo com aquela cerveja morna, aquela cachaça de quinta categoria. Nem lembro como saí do boteco, sei que dormi na rua. Tanto fazia, o mundo ia acabar logo, mesmo.

Acordei no outro dia com o sol batendo na minha cara, todo suado e amarrotado, a vizinhança decerto me olhando mais feio do que de costume. Olhei o relógio: nove e meia da manhã do sábado, dia vinte e dois. Um sol pleno num dia normal.

Caraca, pensei eu. O mundo não acabou – o que é que eu faço agora?


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