FELIZ NATAL

Estefânia chegou há alguns meses do norte, fugida de uma vida de poucos amores e más perspectivas, e no começo de outubro conseguiu este emprego de operadora de caixa num hipermercado que, sozinho, parece ter mais gente do que toda a população da cidadezinha onde vivia. Gosta do trabalho, mas é tanta gente que até assusta; e o fato é que, naquela multidão de colegas, parece mais difícil conseguir amizades. Para Estefânia, cujas atenções só querem uma vida mais confortável, isso não é problema na maioria dos dias.

Mas na noite da véspera de Natal, a solidão cotidiana se agranda. Nesta noite, seria bom ter alguém por perto. Saudade da família, ela pensa, todo mundo tão longe.

Passará a noite de Natal sozinha, sem amigos ou presentes. Apenas telefonará à mãe, e por certo ambas irão chorar. Por isso, não tem a mesma pressa dos colegas, todos torcendo para que termine logo o expediente e possam todos correr para suas casas e famílias, ceias e lembranças, comemorações e amigos secretos. Estefânia, não: quando o mercado fechar, pegará o ônibus e gastará o resto da noite tomando refrigerante, comendo o panetone que ganhou da empresa e olhando televisão. Sozinha, nesta cidade que ainda não a recebeu.

Uma solidão triste, peso que não existe nos outros dias.

Quando sai do caixa, no final do expediente, anda com vagar em direção ao vestiário e abre o armário em que guarda suas roupas.

E então.

Junto às roupas, há um pacotinho miúdo e simples, amarrado com uma fita cor-de-rosa. Nada mais; nenhum bilhete. Estefânia pega o pacote sem entender muito bem o que significa aquilo, olha para os lados para certificar-se que não é qualquer brincadeira. Só então o abre.

Dentro do pacote, há um par de brincos. Dois brinquinhos simples e baratos, pedacinhos de zircônia imitando brilhantes, comprados num baratilho qualquer – mas que tem o poder de transformar a noite de Estefânia. De repente, por obra e graça deste carinho pequeno, não está mais sozinha. Mas quem lhe terá deixado este presente, pensa, enquanto um sorriso novo refulge em seu rosto. E quando sai do vestiário, Estefânia parece outra.

Todos em suas pressas, ninguém percebe isso.

A não ser Donato, o tímido vigilante do turno da noite.


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