O CAVALEIRO E SEU CAVALO

A casa em frente ao mar, aquela imensidão de beleza azul. Os dias preguiçosos e sem horário. À noite, a lua e as estrelas prateando a água. Caipirinha e mariscos, cerveja e peixe, água e frutas, pomelo e doce de leite. O paraíso em céu, água e areia.

Mas no paraíso também é preciso trabalhar, e o escritor tem o compromisso de escrever o conto que publica semanalmente no periódico da região. Tanto faz que esteja em férias; o texto precisa sair.

Só que é difícil. Ele fica em frente à casa, tentando pensar num tema para o conto, mas a beleza da praia mais dispersa do que inspira, e todo o silêncio da manhã convida mais a não fazer nada do que a qualquer outra coisa.

De repente, num canto distante da praia grande, aparece o homem montando num cavalo (ao menos, para o escritor, parece um homem; longe, ambos, muito longe). Cavalga rápido, numa corrida que parece deixar marcas fundas na areia úmida, mas que não assusta os raros banhistas que buscam o primeiro sol da manhã. O homem e o cavalo atravessam a praia duas vezes, à corrida, como se fizessem isso todas as manhãs, e de repente param. Então o homem golpeia as ancas do cavalo com seus calcanhares (é o que imagina o escritor) e, súbito, num galope sem freio, eles entram no mar. Em corrida violenta, furiosamente bela, enfrentam as ondas e levantam águas e espumas, naquilo que – ao menos de longe – parece ser uma grande brincadeira de ambos. Aos olhos do escritor, homem e cavalo se divertem. E então o homem sobe no dorso do cavalo e se atira à água. M ergulha e nada por uns minutos, enquanto o animal apenas o aguarda dentro da água, cúmplice e amigo, numa docilidade enorme. De longe, o escritor adivinha que o cavalo observa e ainda se diverte com o homem. Depois daqueles minutos, o banhista nada em direção ao bicho e monta-o novamente - novamente cavaleiro. E então saem à praia, correm mais um pouco na areia, em meio aos banhistas que continuam sem medo – e vão embora.

O escritor não sabe quem são, de onde vêm ou para onde vão. Não sabe nada das histórias do cavaleiro e de seu cavalo.

Mas sabe que tem o seu conto. Só precisa escrevê-lo.


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