ALTA SOCIEDADE

O restaurante é o mais elegante da cidade, onde a conta final sempre tem três números – às vezes, quatro. E está cheio: a alta sociedade da cidade come aqui, um pouco para ver e outro tanto para ver-se. Todo o restaurante é uma elegância solene: ninguém fala alto, os gestos são comedidos, as risadas educadas.

Observe-se os dois homens que conversam na mesa ao fundo – aquela mesa destinada aos negócios. São dois senhores circunspectos, sérios, engravatados, cuidando de seus movimentos; ambos andarão por seus cinqüenta, sessenta anos, respeitáveis e de poucos sorrisos. Diretores de empresas, donos de coisas e gentes. Discutem sobriamente, provavelmente negociam valores altos. Aos seus lados, na mesa, há alguns jovens também engravatados, mas mais sorridentes: devem ser assessores, secretários. Perderão seus sorrisos quando forem os chefes.

Os dois almoçam e negociam. Os demais apenas almoçam, prontos a qualquer ordem de seus chefes.

De repente, no meio da negociação, o homem de terno azul levanta-se e atira um tanto de uísque e gelo no rosto do homem de traje cinza. Este, molhado e surpreso, devolve o golpe com o que tem na mão – e é um prato de talharim cozido em tinta de polvo que voa no rosto do outro. Ambos se levantam, melecados, e tentam trocar socos com uma agilidade que, na verdade, nunca tiveram. É quase risível sua luta inexistente. Os assessores, então, precisam intervir: separam com elegância os dois grãos-senhores e fazem com que ambos voltem a sentar-se em seus lugares. Os dois se olham com certa fúria durante algum tempo, tentando ameaçar um ao outro com suas próprias respirações. Isso por um minuto, dois. Até que, depois de um tempo, o homem de azul pergunta:

"Onde paramos a nossa negociação?"

"Você me ofereceu três milhões, estou pedindo cinco."

"É muito! Ninguém vai pagar isso!..." – vocifera o primeiro, enquanto voltam à discussão.

Nas mesas próximas, ninguém sequer os olha. Afinal, este é um restaurante muito distinto.


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