OS DIAS LONGOS

(Nota: eu tinha o tema para o conto deste domingo, que se chamaria “As pequenas felicidades”. Mas escrever sobre felicidade, nesta semana, me parece impossível. É uma espécie de desrespeito comigo mesmo. Mas tão difícil escrever qualquer coisa. Assim, busquei um conto antigo e que, de alguma forma, diz respeito à tragédia de agora. Boa leitura - tanto quanto possível).

Seus anos tem mil dias e seus dias tem cem horas. Ela anda pela casa numa solidão feita de tristeza e, ainda que estejam cheios os corredores e repleto de flores o jardim, que o domingo seja um sol pleno e derramado sobre a cidade, o dia é árido e seco dentro de sua vida. Trança suas agulhas sem saber bem porque, tecendo mantas e blusas, pares de meias e casacos, que vão amanhecendo no fundo do armário e no esquecimento dos dias. Senta-se na mesma poltrona que antes - morna - lhe embalava as manhãs, e ela é um feixe de molas duras a estocar-lhe os ossos miúdos. Abre as janelas do quarto e arruma a cama intocada, ajeita sobre ela os travesseiros indormidos, espana dos livros da estante o pó inexistente, enquanto parece sentir no ventre um sopro frio de abandono. No cr iado-mudo, ao lado do reloginho de cabeceira que ainda marca horas inúteis num tiquetaque imutável, ela busca a foto e a olha sempre como se fosse a primeira vez: o sorriso largo e o uniforme sujo são a lembrança de uma infância tranqüila. Quando olha a foto, por mais que tente, não consegue chorar: já se gastaram todas as suas lágrimas. A cada ruído diferente, seu coração é um sobressalto e seus olhos andam em direção à porta da casa; mas é sempre o vento, um galho que cai sem motivo, passos de alguém que já sumiu na rua, nada.

Lembra quando aquele sorriso largo saiu de casa pela última vez e sente que suas entranhas se revolvem como vinte anos atrás. A dor é tanta, tanta, que só amaina com o uivo atávico de loba ferida que sua garganta dá sem rec onhecer-se. Depois, repete o nome amado - todas as vezes.

A solidão que hoje comparte com seu companheiro é cheia de perguntas e não tem lugar para respostas: por quê? o que aconteceu? por quê? quanto tempo já? por quê? quanto tempo ainda? e por quê?

E será apenas saudade o nome desta dor?

Ela sabe que é mais, e é por isso que teima em arrumar a cama todas as manhãs, abrir as janelas do quarto vazio, tecer as malhas nas quais enreda seus dias, olhar a porta por onde ele saiu: para não morrer de desatino (é este o nome, este!) e porque, por mais que tenha a certeza que seu filho não voltará, sabe que esperar é o ofício da mãe.


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