AS FELICIDADES PEQUENAS

Estou saindo do supermercado, com aquela pressa que normalmente temos sem maior motivo, quando uma cena faz com que eu diminua o passo e, carregando a sacolinha de pano que sempre carrego para as pequenas compras, acabe por parar, disfarçadamente: não quero que percebam a minha indiscrição e, por conta disso, interrompam o que fazem.

Na saído do mercado há um espelho e, em frente a este, um banco de madeira. Sentados naquele banco, de frente para o movimento e com as costas refletidas no espelho, três pessoas tiram uma fotografia.
Uma senhora e dois homens mais novos; talvez sejam seus filhos. Uma quarta pessoa, talvez um desconhecido, é o encarregado de tirar a foto.

Os três sorriem para a câmera.

Penso: mas que ideia estranha! Por que alguém escolhe o corredor do supermercado para tirar fotografia? Não poderiam escolher algum lugar mais bonito para isso?

Mas logo depois repenso; e, ao contrário, por que não se pode escolher o corredor do supermercado para tirar a fotografia? Porque o fato é que sorriem para a câmera, mas também para além dela. Devem estar felizes a ponto de fazer isso; provavelmente a foto seria sacada onde estivessem neste momento – no estacionamento ou na entrada de um edifício ou dentro da farmácia ou...

O que importa, para aqueles três sorrisos de mãe e filhos (porque são mãe e filhos, sim, só podem ser) é aquele momento de alegria. Quem sabe há muito tempo não se encontravam e resolveram celebrar o reencontro fazendo um jantar especial, e comprar umas coisinhas boas? Quem sabe a mãe ou qualquer dos filhos recebeu há pouco uma notícia positiva do médico e resolveram os três beber um vinho especial para comemorar a vida? Quem sabe não tenham nenhum motivo especial, e resolveram tirar esta foto apenas porque resolveram?

Na verdade, penso, pouco importa o motivo do retrato. Bom que simplesmente fazem isso, pronto.

E que bom que a minha pressa não tenha interferido na alegria deles, e que a alegria deles tenha interrompido a minha pressa.


Outros Contos


AUTOESTIMA

ELE NÃO SABE

A SERENATA

O CINEMA

A BANDALHEIRA

A NÃO NOTÍCIA

ESTE ANO

CENA DE CINEMA

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

LADY MADONNA

INFÂNCIA MODERNA

OCORRÊNCIA POLICIAL

AMOR NÃO RIMA COM BAR

RECEITA PARA SARAU

O CASAMENTO

O CASAL

O CASACO DE LISTRAS AZUIS

SONHOS À VENDA

CIDADANIA

O BAILARINO

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais