AINDA CARNAVAL

João e Maria sambando o seu carnaval. Ele, um pierrô; ela, colombina. Pierrô e colombina: o casal mais antigo da folia, o mais lindo de todos. João alugou a fantasia dias antes, Maria começou a coser sua colombina há quatro meses - e na primeira noite ainda havia brilhos a instalar. Mas nem João percebeu as lantejoulas faltantes, nem Maria notou que já estavam puídas as mangas do aluguel. Eles apenas se perceberam sem nunca antes haver se visto, lindos os dois, e lindos se enxergaram desde então. João viu aquela colombina de olhos castanhos que diziam tanto; ela teve que rir daquele pierrô que dançava com espalhafato e, por mais que tentasse acertar, parecia destinado a não encontrar o ritmo. Cruzaram duas ou três vezes nos caminhos mesmos da multidão. Na terceira, Maria se assustou quando João a abraçou e puxou-a para rodopiar o salão, mas era a festa. A festa. Ela riu, ele riu. João e Maria sambando o seu carnaval. Quando ele a beijou pela primeira vez, beijo demorado e claro, ela se assustou novamente – mas ainda era a festa. E foi um susto breve: a boca de João soube procurá-la, na tranqüilidade dos que bem conhecem, e então Maria deixou-se e teve a certeza que o carnaval não poderia simplesmente terminar na quarta-feira de cinzas. Ele a beijou novamente e, logo que parou, foi a vez de ela o beijar; e então ambos rodopiando pelo salão, pierrô e colombina, a combinação mais linda de todas as folias. João e Maria sambando o seu carnaval. E então nada mais existia. As marchinhas antigas e as bobagens novas, confete e serpentina, bebida gelada e petiscos mornos – tudo vinha sem que sequer percebessem. Jogavam serpentina nos outros, mas não enxergavam ninguém; acompanhavam a banda em seu alalaô compassado mas só escutavam as próprias vozes e risadas, nada mais importando ao redor. João e Maria sambando o seu carnaval. O sábado passou, o domingo chegou em samba, a segunda acabou-se, a terça encerrou-se em promessas para o ano que vem, mas a quarta-feira que findou-se em despedidas não conseguiu terminar o carnaval de João e de Maria. Eles seguem dançando, compassados e novos, o ritmo finalmente descoberto, enquanto a música já não toca mais. As luzes apagadas, o salão varrido, os instrumentos guardados, o confete na lata do lixo, o povo todo em suas casas esperando o ano que começa, mas eles não. Os dois dançam a música inexistente, só eles dois existem e nada além, olhares que se descobrem um pouco mais a cada instante, pierrô e colombina apaixonados, amorosos em suas fantasias. João e Maria sambando o seu carnaval. Um carnaval que, para eles, não quer terminar.

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