VIZINHAS

Noêmia e Araci são ambas donas de casa, vizinhas há quinze anos. Há dez, chova ou faça sol, às nove da manhã elas se encontram na cerquinha de madeira que divide as casas, apenas para comentar as coisas mais importantes do dia anterior e as expectativas daquele cuja manhã vai pela metade, almoço já nos planos e nos inícios. Falam de pé, sem chimarrão nem nada, porque o tempo é sempre curto; apenas conversam uns minutos, intervalo bom nas suas fainas diárias, e então voltam aos afazeres em suas casas. Casas diferentes, tarefas mesmas. Sempre isso, todos os dias, há dez anos.

Mas hoje, não.

Às nove em ponto, Araci estava na cerca, assuntos prontos para serem conversados. Mas nove e cinco, e dez - nada de Noêmia aparecer. Araci chamou por duas vezes a vizinha, voz em certa timidez desacostumada – mas sem resposta.

Então pensou que alguma coisa errada poderia ter acontecido. Noêmia doente, presa em algum contratempo, a casa sendo assaltada (susto!) ou... ai, meu Deus, se tivesse sofrido um enfarte, um ataque cardíaco e estivesse, àquela hora, estendida no chão? Vou lá, pensou.

Abriu a porta da casa vizinha com cuidado e surpreendeu-se (com alívio) ao ver Noêmia no sofá, em lágrimas emocionadas, assistindo a um programa matinal.

“Oi, Noêmia, bom dia! Pensei que tinha te acontecido alguma coisa! Me deixou esperando!” – um sorriso amarelo.

A outra olhou o relógio.

“Nossa, já são nove e vinte! Nem me dei conta! O programa tava tão bom que nem vi o tempo passar!... Mas senta aí, vamos olhar juntos!...”

“Não, não. Preciso começar o almoço. Só passei para ver se não tinha te acontecido nada...“ – o sorriso ainda amarelo.

E ela volta para casa, pronta para pensar no almoço do marido, dos filhos. Está aliviada porque nada de ruim aconteceu com a amiga.

Mas alguma coisa dentro dela se quebrou.


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