ARCO-ÍRIS

E de repente, no meio da discussão, Joana estanca o passo e toca-o de leve no braço esquerdo.

“Olha só o arco-íris! Que coisa linda!”

Ele olha para onde aponta o dedo da companheira e a verdade é que não enxerga arco-íris algum.

“Onde?” – ele pergunta, um pouco agastado. Discutiam, ambos, e ele sentia que estava vencendo; assim, não era a hora de interromper a discussão – ainda mais, por causa de um arco-íris.

Um arco-íris!

“Bem em frente, olha!” – e ela segue apontando para um lugar do céu, percorre com o braço a extensão imaginária do leque multicor que enxerga. “Tão lindo, ele.”

O homem olha outra vez – talvez não houvesse observado direito antes, admite, nem sempre presta atenção a ela e suas coisas. Mas novamente não enxerga nada.

“Não tem arco-íris no céu.” – ele contesta, seco.

Mas ela insiste:

“Está lá ele, super colorido. Nunca vi com a cor tão forte.” – e, baixando o dedo que apontava para o seu arco-íris, não diz nada mais.

“Certo, certo. Então está lá o arco-íris...” – ele concorda, condescendente. Não quer saber de algo bonito no céu; talvez só queira voltar à discussão. A discussão que estava vencendo.

Mas nem ele, nem ela falam qualquer coisa nova. A discussão em que vinham dá lugar a um silêncio incômodo, sem arco-íris.

Cada vez mais difícil conversar com uma mulher que imagina bobagens, pensa ele.

Cada vez mais difícil conversar com um homem que já não enxerga o arco-íris, pensa ela.


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