O BAILARINO

São amigos há tantos anos, desde a época em que eram solteiros, e seguidamente se reúnem para celebrar esta amizade. As famílias todas: mulheres, maridos, os filhos que vão crescendo.

E então os adultos, numa espécie de brincadeira, resolveram perguntar às crianças o que gostariam de ser quando crescessem. Os meninos se dividiram: jogador de futebol, fazendeiro, piloto de corridas, projetista de videogame. As meninas gostariam de ser professoras, modelos ou psicólogas. Nada muito incomum. Até que chegou a hora de Roberto responder.

“Eu quero ser bailarino.”

Surpresa na sala, mistura de susto e risadas (risadas assustadas). Roberto tem oito anos, brinca com os amigos, joga bola com a molecada, vez por outra inclusive saem todos no braço e ele não é de levar desaforo para casa. Pode-se esperar dele uma resposta parecida a dos outros garotos. Mas bailarino?

“Bailarino, Roberto? De onde saiu isso? E por quê?” – é o tio Jorge quem pergunta, mas a dúvida é de todos.

“Ué, eu gosto de dançar.” – responde o menino, e em sua resposta há uma obviedade que torna ainda mais estranha a pergunta do tio Jorge. Ninguém havia perguntado aos que queriam ser jogadores de futebol porque queriam ser jogadores de futebol.

“Não quer ser jogador de futebol, como os teus amigos?” – pergunta outro tio. O pai e a mãe de Roberto estão quietos, não dizem nada.

"Não. Eu gosto de jogar bola, mas quero ser bailarino.” – sempre simples, o garoto.

Há uma espécie de silêncio incomodado entre os adultos, enquanto as crianças riem uns sorrisinhos pequenos, disfarçados. Os adultos se olham, ninguém fala nada. Roberto não consegue entender este silêncio.

Mas, de repente, nestes seus oito anos que ainda sabem tão pouco, descobre que precisará lutar muito para poder dançar.


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