DEFICIÊNCIA

Estou saindo do banco, onde fui retirar os minguados caraminguás de minha aposentadoria, quando vejo o carro estacionando na vaga destinada aos deficientes físicos. Dele sai uma mulher, falando o telefone. É bonita, ar confiante; terá, quando muito, quarenta anos. Desliga o aparelho e espero que vá até o outro lado do veículo para auxiliar a pessoa que necessita de cuidados especiais e que, certamente, estará no banco do caroneiro. Mas não há ninguém, e a mulher se dirige ao banco.

“Moça.” – digo eu, com suavidade. – “Esta vaga é para deficientes físicos.”

Ela me olha com certa surpresa.

“Mas não tinha ninguém estacionado aqui.”

O argumento, penso eu. O argumento!

“Mesmo assim, moça. A vaga é para deficientes físicos.”

Ela deve estar se perguntando quem é este imbecil à sua frente, enquanto me responde, num resfolegar de pouca paciência:

“Só vou entregar um documento no banco. É um minutinho.”

Eu, então, aponto para a enormidade de carros ao redor.

“Se cada carro que estiver por aqui ocupar a vaga por um minutinho, ela vai estar sempre ocupada.”

Ela, então, sacode os braços e olha o relógio, num gesto de paciência esgotada.

“Olha aqui, meu senhor. O senhor se meta com a sua vida e não com a vida dos outros! Eu vou entregar o documento no banco agora! E vou deixar o carro estacionado onde eu quiser e pronto! O carro é meu e estaciono ele onde eu bem entender!”

E ela entra no banco, seus passos um peso só. Nem olha para trás.

Mulher idiota, penso eu. Mas deficiência de caráter não é deficiência, penso também.

E saio a procurar um guarda de trânsito para que a multe.


Outros Contos


O PRIMEIRO AMOR A GENTE NUNCA ESQUECE

O GÊNIO NA VIDA DE VICENTE

O CÃO AZUL

O HORROR

2017

O CÃO, OS FRANGOS, O TEMPO

DESENCONTRO

A HISTÓRIA

CENA DE CINEMA

TROCAR OS PAPEIS

A HISTÓRIA

O PERSONAGEM QUE ME ESCREVE

O CELULAR DO MEU FILHO

OS OLHOS DAQUELE MENINO

CIDADANIA

LUCIA?

AMOR DE CARNAVAL

PARA QUE SERVEM OS LIVROS?

A TRAGÉDIA

A BANDALHEIRA

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais