BURRO DA PÁSCOA

Era para eles estarem viajando neste feriado de Páscoa. Não para comemorar a Páscoa em si, mas sim para celebrar a eles próprios - como devem ser mesmo as coisas.

Mas aí ele. Ah, ele.

Ele, o burro. Assim, sem mais e nem menos, ele a magoou. Por bobagem. Por burrice. Por nada, ele a magoou. Magoou a mulher da sua vida. A mulher com quem comparte a história boa e com quem divide as horas ruins; a mulher que o sustenta sem saber, ao mesmo tempo em que também é por ele sustentada. São ombros que se tocam sem necessidade de aviso – e tudo isso, agora, jogado para cima.

E então, claro, eles não viajam. Não há como fazê-lo. Não celebram a nada nem a ninguém, não dividem risadas nem garrafas de vinho, as procuras por delicadezas nas banquinhas de antiguidades ou nas livrarias, os passeios na simplicidade das mãos dadas. Nada; apenas permanecem em silêncio pelas salas e quartos da casa. Ela, porque a tristeza talvez seja maior do que o possível; ele, porque setenta mil pedidos de desculpa não seriam suficientes. A Páscoa sem palavras. Quando se cruzam em seus caminhos é tudo uma mudez desolada, e ele se sente como se fosse invisível ou seu sangue não existisse mais. A tristeza tanta (e digna) da mulher da sua vida, e ele é o único culpado. A mulher a quem ama chora em mágoas que não merecia. É ela quem se consome numa agonia que deveria ser dele.

Dele, o burro.

E agora, enquanto se cruzam pela casa numa cala constrangida e ele apenas finge que faz algo importante enquanto não consegue fazer nada, a única coisa que consegue verdadeiramente desejar é que, se a Páscoa é mesmo um tempo de ressurreição, que esta palavra tenha chance e significado nestes dias de tantas pedras.


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