JAIRO

Sempre a dedicar-se aos outros, Jairo, sempre à disposição, sempre a chegar às sete da manhã e parar só à noitinha, a varrer a casa, espanar os móveis, brilhar a cozinha, tirar o pó das lâmpadas, atender ao telefone e deixar o recado certo, anotar a listagem das compras do supermercado, regar as plantas, aguar o gramado, dar comida ao gato e aos cachorros, cuidar do pátio, limpar as janelas, estender os lençóis, afofar os travesseiros, arrumar a cama, lavar a louça, arear as panelas, escorrer os pratos e os talheres, descer a escada, subir a escada, separar a roupa clara da escura, colocar os montes separados na máquina de lavar, estender as calças e as camisas na secadora, tudo limpo, sempre, tudo, a casa das outras pessoas. A própria casa também – um brinco.

Cuida um pouco de ti, Jairo, estás mais magro, dizem amigos. Ele rindo e prometendo: pode deixar, vou me cuidar.

E nos finais de semana, nada de descanso. Tempo de trabalhar para que os outros se divirtam. Atravessa a noite lavando copos e pratos e talheres, limpa travessas, arruma toalhas e decora mesas, despeja os restos nas latas de lixo, serve um prato de salgados aos colegas, leva doces aos seguranças, corre e corre e corre na madrugada, e às primeiras luzes da manhã lá está Jairo a lavar o salão e limpar os banheiros de fim de festa, cantando ainda quando não lhe chega o cansaço.

Cuida melhor de ti, Jairo, dizem as pessoas, estás mais pálido. Ele rindo e prometendo: pode deixar, vou me cuidar.
E nos intervalos da correria, marcar hora no médico para a tia, levar a vizinha ao cabelereiro, passar na farmácia e comprar acetona para a sobrinha mais velha, brincar um pouco com a sobrinha mais nova, ajudar o irmão a lavar o carro, comprar cremes de beleza para a prima na internet, visitar a velhinha que mora três casas abaixo, vinte e cinco horas por dia, Jairo a dedicar-se aos outros, Jairo sempre à disposição.

Cuida melhor de ti, Jairo, dizem as pessoas. Ele prometendo: pode deixar, vou me cuidar.

Mas já não ri.


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