O IPÊ

Soube que hoje querem derrubar o ipê próximo à minha casa. A árvore está na calçada e, segundo dizem, vai atrapalhar a entrada e saída dos carros de um estacionamento que está se instalando no terreno em frente.

Querem derrubar o ipê, penso.

Mas não vão, decido.

Cresci ao redor desta árvore, meus filhos estão fazendo o mesmo. Quando o ipê floresce, não há nada mais bonito no mundo; quando não floresce, também. O ipê é parte da vizinhança, vizinho mudo e querido. Como o seu Osmar, que mora duas casas abaixo e que, apesar de não falar muito, está sempre pronto para ajudar no que for necessário. Talvez o ipê e o seu Osmar sejam os vizinhos mais antigos da rua. Seu Osmar e eu respiramos o ar que vem do ipê. Nós e todos os outros vizinhos.

Coloco alguns sanduíches na mochila, duas garrafinhas de água mineral, três maçãs e um livro do Gustavo Nielsen, que não estou conseguindo largar. Também pego uma corda forte, para me amarrar aos galhos mais altos da árvore, se for preciso.

Subo no ipê logo que vejo os homens com serra elétrica se aproximando.

Eles param quando me enxergam, parecem não entender o que está acontecendo. São cinco. Um deles diz:

“Se a árvore cair, o homem cai também.”

É verdade – e ele não sabe a grandeza de suas palavras.

Grito que não vou descer, que me tirem à força – se quiserem. A vizinhança, curiosa, chega às janelas, à calçada.

Os homens da serra elétrica não sabem o que fazer. Um deles está fazendo uma ligação telefônica, para falar deste maluco - que sou eu – que atrapalha o corte da árvore e o progresso da cidade. E sinto que já tenho, ao menos, uma vitória – sorrio. Se a árvore cair, o homem cai também.

Quando olho para baixo, vejo o seu Osmar, que me faz um sinal de positivo e já começa a subir na árvore com uma mochilinha.

E os outros vizinhos se aproximam.


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