A VIDA

O teatro é todo um silêncio respeitoso.

O violoncelista da orquestra, depois de quarenta anos de concertos e ensaios, está se aposentando. Ele acaba de acomodar-se em sua cadeira, após uma salva de palmas à qual sequer estava muito acostumado e que lhe umedeceu os olhos cansados de músicas e partituras, e se prepara para tocar. A apresentação não deixa de ser uma homenagem: as duas suítes de Bach que encerram o concerto são para o seu solo de violoncelo. Pode-se escutar a respiração dos músicos; todos aguardam que, em instantes, ele comece a tocar.

O teatro é todo um silêncio de lembranças.

Em quarenta anos de orquestra, fez muito mais amigos do que desafetos. São quatro décadas, pensa ele: tantos se foram, quantos chegaram. Os moleques cheios de ganas lindas, os velhinhos se resignando a bem acertar as notas, a companhia sempre revigorada da música. Ficará agora sem a rotina dos ensaios, das viagens, dos erros e acertos, dos aplausos, das apresentações, os teatros e as praças, o peso e carregar o instrumento.

O teatro é todo um silêncio emocionado.

Mas também terá o tempo que sempre quis e pouco pode à família. Por isso, estão todos no teatro, agora, nós na garganta a assistirem seu último concerto: a mulher, os três filhos, as duas noras, os quatro netos. Inclusive Artur, pouco mais que recém-nascido: cinco meses e está assistindo à despedida feliz e triste do avô.

O teatro é todo um silêncio expectante.

Não há o som de nenhum instrumento. Agora, sequer os respiros se escutam. Todos parecem prender o ar, esperando que ele inicie o seu solo, o seu momento, a sua dança imóvel de despedida.

Ele puxa o arco, pronto para tocar sua primeira nota.

E então, Artur começa a chorar.


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