QUINZE ANOS

Um sorriso, o suspiro, o tremor, a lágrima parada nos olhos – tudo neste breve de memória.

Lembra como se fosse agora. Tinha sete anos, a pequena, e eram aquelas dores de cabeça que não passavam e permaneceram durante semanas, e que num instante só, no consultório médico, haviam passado de doença sem nome a doença cujo nome ainda é medo. Foi um golpe, chão que se abria em lâminas abertas, sentença de morte que durou um segundo.

Mas um segundo só.

Porque no segundo seguinte já estavam todos restaurados, decididos a rasgar com os dentes da vida esta sentença inesperada. A doença cujo nome alguns não dizem começou a ser enfrentada em todas suas letras, não como o câncer mortal dos avós, mas como o mal possível dos nosso dias. Força inteira – e ela, dentre todos, a mais forte, ainda sem saber. Enfeitou com sorrisos os sofreres do tratamento, os raios dolorosos à sua pequena infância, e foram poucas as lágrimas que caíram junto com os cabelos. Há uma foto num Natal, alguns anos atrás: ela, com a cabecinha luzidia em sua beleza; a mãe, touca de plástico na cabeça, ambas carecas provisórias e gargalhando. Gargalhando o dia, a celebração, o momento. E logo se soube que aquela menininha era mesmo especial – tão especial quanto todas as outras menininhas que especiais precisam ser.

Mesmo quando foi difícil, nem foi - tanto. Claro que houve os desavisados, os preconceitos – a vida também é feita de coisas menores. Mas era olhar para os lados e perceber os apoios, os ombros, os medos indo embora, os braços dados tecendo uma rede a proteger esta menininha supermoça. Esta menininha mulher maravilha. Os médicos, as médicas, os enfermeiros, as enfermeiras, o pessoal da escola, até alguns desconhecidos, a fortaleza erguida nos braços da família. E a AMO, claro.

Mas isto tudo é uma lembrança de instantes.

Porque agora aquela garotinha careca de sete anos é uma moça linda e cabeluda de quinze, com quem ele, pai trêmulo e desengonçado, está prestes a dançar a primeira valsa. É esta moça linda que o olha com certo desafio adolescente e, enquanto começam os primeiros acordes, tem tempo para lhe pedir, baixinho, que ele não a envergonhe com seu desengonço e nem lhe pise nos pés.

E é só aquela valsa que dançarão, ela já avisou em casa. Depois, vai dançar a noite inteira com os amigos. E, principalmente, com o namorado.

O pai dança a valsa e sorri, enquanto não consegue deixar de olhar a filha, linda e plena de futuros. Namorado, se resigna ele. E, enquanto atravessa a música e pisa desengonçado nos pés da envergonhada filha, ele só consegue pensar, meu Deus, que a vida também pode ser linda...


Outros Contos


REENCONTRO

MAX, QUE TRATA BEM AS PALAVRAS

NAQUELE INSTANTE DE ESTUPIDEZ

DEPOIS DO NATAL

A ETERNIDADE DURA MUITO

NA FOTOGRAFIA

DANÇAR A DANÇA INVISÍVEL

CONCERTO

DIA DOS NAMORADOS

A MEMÓRIA AO LADO

O CASACO DE LISTRAS AZUIS

NO CAFÉ

O GRITO (OS GRITOS)

AS COTAS

A MENTE COLORIDA

A VIDA É UM POÇO ATRÁS DO OUTRO DE INJUSTIÇAS

NÚMERO DESCONHECIDO

OS CINCO HOMENS VELHOS

A VISITA DAS SETE MENINAS

WALDISNEY

 

 

 
 

 


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