NICOLAU

O homem está sentado no banco da praça, pensando em nada. Talvez pense – apenas talvez! - no quanto a vida não lhe tem sido generosa. Os olhos tristes olham o longe – ou lugar nenhum. No colo, o jornal ainda não lido. De repente, sua tristeza sem nome é interrompida pelo mendigo que parece ter vindo do nada.

“Com licença. Se o senhor já leu o jornal, poderia me emprestar?” – pergunta o aparecido.

Quando volta o rosto para o pedinte, pronto a negar-lhe o periódico, reconhece o antigo colega de escola.

“Geraldo!” – ele exclama. Mas o mendigo se surpreende com aquela surpresa.

“Geraldo? Não...” – mas o homem da praça o interrompe.

“Geraldo, não lembra de mim? O Tibério, da turma do terceiro ano! Do Flores, lembra? O quarteto – tu, eu, o Maçaneta e o Petry! A turma que sentava no fundo da classe e passava bagunçando o tempo inteiro! Nossa mãe, quanta bagunça!” – e o olhar saudosista, muito – “Depois, nunca mais vi ninguém! Saudade daquele tempo...” – e, subitamente livre da tristeza em que estava, dirige ao mendigo um olhar que pede cumplicidade.

Mas o outro faz um sinal negativo com a cabeça.

“Desculpe, mas o senhor está me confundindo com outra pessoa. Meu nome não é Geraldo. E imagine só, se eu tivesse estudado, hoje não seria um mendigo...” – ri, o riso de pouca alegria.

“Mas não! A vida é assim mesmo! Nem sempre os planos da gente se realizam...” – ele parece falar mais para si do que para o outro – “Mas então me desculpa se te confundi com outra pessoa, e aí bateu uma saudade grande daquela época. É que vocês são muito parecidos. Trinta anos de diferença, mas ainda assim iguais. ”

`É, mas o tempo engana.” – comenta o mendigo, enquanto começa a se afastar, sob o olhar novamente triste do homem da praça.

“Amigo!” – o outro o chama. – “Pode levar o jornal.” – e estende o diário ao pedinte. – “Mas como é o seu nome, então?”

“Nicolau.” – responde Geraldo.


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