A MÃE E A FADA DO DENTE

Quando Dudu apareceu em pânico com seus cinco anos recém completados, não sabendo se chorava ou se apenas gritava e carregando na mão o primeiro dente-de-leite recém caído, boca vermelha de sangue e susto, a mãe logo soube acalmá-lo contando a história da fada do dente.

O menino escutou encantado o que a mãe dizia. Um pouco pela moeda que ganharia se, naquela noite, deixasse o dentinho embaixo do travesseiro, mas muito mais pela história em si. Uma fada em sua casa, uau! E no seu quarto, ainda melhor! A mãe apenas contou o que aconteceria e adiantou que quem traria a moeda seria a fada mais linda do mundo. Depois, deixou à imaginação do garoto todo o resto: a beleza diáfana da fada, a leveza de seus movimentos, a bondade em seus gestos, o cheiro bom que deixaria no ar, o vôo quase invisível.

Dudu foi para a cama mais cedo naquela noite, depois de ajeitar o dente com capricho embaixo de seu travesseirinho. Queria que a fada chegasse logo - que lhe trouxesse a presença mais do que a moeda. Olhos arregalados em direção à porta (mas será que ela entraria mesmo por ali, assim tão simplesmente?), ele esperava pela mulher mais linda do mundo. Esperou, esperou, cansou – mas nada daquela fada aparecer.

Até que se deu conta de que ela não chegava justamente porque ele ainda estava acordado. A fada, é claro, não apareceria para ele. Mas não posso dormir, pensou, preciso conhecer a fada mais bonita do mundo. Então, na sabedoria de sua curta vida, resolveu fingir: começou um pequeno ronco falso e fechou os olhos pela metade, o suficiente para enxergar. Desse modo, pensou, enganaria a fada com seu sono inexistente e conseguiria vê-la à hora em que ela chegasse. E assim fez, com a paciência de um velho.

E quando a porta se abriu silenciosa e suavemente, deixando entrar um pouco da luz do corredor, ele soube, os olhos semicerrados em seu falso sono, que a história da mãe era mesmo verdadeira: estava entrando em seu quarto a fada mais bela do mundo.


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