SONHOS À VENDA

João nunca teve jeito para os negócios, mas sempre soube sonhar bem. Contava aos amigos e vizinhos a beleza do sonho da noite anterior e ficavam todos maravilhados, invejando fraternalmente sua liberdade onírica. Bonito este teu sonho, diziam eles. E até algumas namoradas o feio João conseguira, exagerando a poesia com que havia sonhado. E então, achando que isso poderia ser um bom negócio, João decidiu vender sonhos. Afixou uma plaquinha em frente à casa e começou a esperar pelos clientes.

A primeira pessoa não tardou a chegar. Uma senhora gorda, que entrou cheia de esperanças e saiu frustrada quando descobriu que não se tratava de uma nova confeitaria no bairro e que os sonhos à venda não eram feitos de massa e açúcar, mas sim das idéias de um maluco.

O próximo foi um desconhecido que sentou-se e não disse nada. Apenas esperou que João lhe contasse todo o sonho que havia tido na noite passada. Escutou-o sem piscar, respirando aos poucos, sem desviar a atenção. Mas quando João acabou, o homem disse que não era aquele o seu sonho e foi embora sem pagar.

Logo depois, entrou uma mulher. Belíssima. Tão bela que João não conseguiu contar nada. O sonho estava à frente dele, não havia chance de outro melhor. Atrapalhou-se inteiro. Quando a mulher partiu, meia hora mais tarde, João só conseguiu balbuciar um desarticulado pedido de desculpas pelo monte de tonterias que provavelmente havia dito.

O próximo a entrar foi um amigo seu, daqueles que sempre elogiavam a beleza dos sonhos contados. Mas quando soube que agora seria necessário pagar para ouvi-lo, desistiu. E saiu decepcionado, um pouco desiludido. Talvez não esperasse aquilo de João.

E depois outra pessoa.

E depois outra.

E outra.

*********

Há três semanas João está em casa, esperando algum cliente que pague para escutar seus sonhos. Mas ninguém vem, e os amigos, antes tão presentes a escutarem suas histórias, agora raramente aparecem (mal sabe ele que os amigos estão um pouco tristes; João, sempre tão generoso na contação de sonhos, não poderia ter mudado..)

Ele já pensa em desistir, tentar outro negócio – serviços gerais, instalações elétricas. Afinal, descobriu ele na própria carne, sonhos não são matéria para ser posta à venda.


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