O ACASO

E então Antonio andava distraído pelo parque, protegido pelo acaso, naquela manhã de sol pleno e derramado de domingo. Manhãs ensolaradas de domingo são tempos que não devem passar, pensava ele no conforto fácil de suas calças de abrigo e no all star gasto por bons e maus caminhos.

Ia tranquilo, pensando um pouco no almoço e outro tanto em nada, quando de repente passou ao seu lado, correndo e sem vê-lo, elegância de Balenciaga em seu uniforme de corrida, a mulher mais linda do mundo. É esta a mulher da minha vida, pensou Antonio num átimo, e quando percebeu corria em seus desajeitos atrás dos passos suaves da desconhecida. Pouco pode vê-la nesta corrida, Henrique, preocupado que estava em manter o fôlego e não perder de vista aquela que, de uma hora para a outra e por obra e graça do acaso, podia ser a mulher de sua vida.

A mulher saiu do parque, ainda correndo, e correndo seguiu pelas ruas próximas, até entrar numa casa daquelas em que a Poesia vive dias sem sobressaltos, como um gato na vidraça ensolarada. Flores na janela, cortininhas de voal, a casa de pedra, canteiros no pátio, muro baixo – a Poesia não vive bem em casas de muros altos. Antonio pensou que a casa era bem a casa da mulher de sua vida. E que entrara assim ao acaso em seus dias, sem sequer saber ainda que ele existia!...

Ele voltou para casa esquecido do almoço e decidido a fazer com que ele próprio entrasse na vida da mulher de sua vida como ela havia entrado na sua. Não sabia nada sobre ela; o seu nome, o que fazia, se tinha joanetes, se preferia gatos a cães, o seu time de futebol, suas músicas preferidas, o prato predileto. Não sabia sequer se ela era solteira.

Mas o que sabia é que o destino não poderia ter colocado à sua frente, sem maior motivo, alguém que lhe acendera na mesma hora todos os bons alarmes do corpo. Sorte, destino, fado ou acaso, pouco importava: a mulher de sua vida aparecera e não podia deixar a chance passar.

Armou-se de flores e versos, encheu-se daquela coragem que só tem os apaixonados, vestiu-se de cores novas, calçou seus sapatos de vento e correu a apresentar-se à casa daquela que, pensava, podia ser a mulher da sua vida.

Mas a mulher não estava. Quem atendeu a porta, beleza e sorriso de quem sempre soube, foi a irmã dela. Luminosa. E naquele instante, enquanto a irmã sorria o seu sorriso iluminado e sem motivos, Henrique soube, sem que nenhuma dúvida lhe restasse, que agora, sim, estava em frente da mulher da sua vida.


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