S/A

Hoje pela manhã, os responsáveis pelo departamento de Tecnologia da empresa estiveram em minha sala de trabalho. Somos trinta e seis trabalhando nesta sala, atualmente, em quatro módulos de nove – sou o coordenador de um deles.

Os técnicos precisaram vir à sala, que dista a quase um quilômetro do departamento em que trabalham, por causa de um problema bastante sério: sumiram dois sabonetes do banheiro masculino da ala 7E. Não apenas um: dois! E o sumiço de objetos, segundo o comunicado oficial da direção geral da empresa, é algo que não pode acontecer.

A empresa zela muito pela proteção de seu patrimônio. Para isso, há câmeras nos corredores, em todas as salas, nos pátios, nas entradas, nas saídas, no refeitório, nos fumódromos, nas pequenas áreas de lazer, no pátio interno, nos vestiários e nos banheiros. Ouvi dizer que há câmeras instaladas inclusive nas salas das gerências. Além disso, em todos os setores há vigilância armada, treinada e pronta para agir. Por isso, comentou um dos responsáveis pelo departamento de Tecnologia, é inadmissível que desapareçam, sem qualquer motivo, não apenas um, mas dois sabonetes inteiros!

À data do sumiço, houve revista minuciosa dos empregados à saída. Alguns se negaram, sem saber que estas são as regras da empresa, e por isso foram despedidos na manhã seguinte. Nada foi encontrado: o meliante deve ser mesmo muito inteligente. Então, mesmo com a revista completa e seguindo-se todas as regras de segurança, o patrimônio da empresa continua desaparecendo. E, como bem disse o comunicado oficial da diretoria, de sabonete em sabonete pode-se chegar à falência.

Assim, foi necessária uma solução mais drástica – esclareceu-me o encarregado do departamento tecnológico.

A empresa instalou um chip em cada um de seus empregados.

Um chip bem pequeno, colocado numa parte quase invisível da nuca e que, segundo todos os comentários técnicos, não deve causar qualquer incômodo. Com o chip, a empresa conseguirá melhor monitorar os movimentos de seus empregados, tanto no que diz respeito à produtividade quanto à possibilidade de qualquer passo em falso. Com o chip, me disse o técnico, nenhum sabonete irá sumir.

Um chip em minha nuca. Na verdade, incomoda um pouco, mas acho que é só nos primeiros dias. Além do mais, fazer o quê? São as regras da empresa. A gente precisa cumpri-las.


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