DIA DOS NAMORADOS

Fernando ama Isabel como nunca amou ninguém nesta vida. Quando acorda, é nela em quem pensa, antes de tudo; quando vai dormir, é para ela que se dirigem seus melhores desejos. E ao longo do dia, nos intervalos das coisas menos importantes, Isabel segue povoando suas vontades e lembranças.

Por isso, Fernando resolveu caprichar no presente de Isabel, no Dia dos Namorados. Não estava muito bem de dinheiro (nunca), mas isso não chega a ser problema para quem é criativo e está verdadeiramente apaixonado. Uma flor bem escolhida e um belo e único cartão deveriam servir.

Na floricultura, ele escolheu a rosa mais vermelha – porque todos sabem que o vermelho é a cor da paixão verdadeira. Uma flor grande, as pétalas cheias de vida, que Fernando levou para casa com o cuidado de quem carrega uma...uma...bem, com o cuidado de quem carrega uma flor.

Escolheu o cartão sem palavras, apenas a foto de um casal se abraçando. O texto, resolveu ele mesmo escrevê-lo. Um poema, algo bem lírico e emocionante, em que conseguisse dizer à Isabel tudo – mesmo – que sentia.

No dia 12, entregou o cartão e a flor para a amada. A flor estava um pouco murcha, já que Fernando – precavido – a comprara na segunda-feira, e então Isabel não lhe prestou muita atenção. Mas o poema. Ela o leu demoradamente, no rosto um sorriso pleno de enigmas, enquanto Fernando aguardava aquela leitura como se daqueles olhos lhe dependesse a felicidade. Quando terminou de ler, Isabel devolveu-lhe o cartão. Ela então olhou-o como se tivesse cinco metros de altura, e comentou, seca:

“Isabel não é com ´z´”.

E afastou-se, sem dizer mais nada.

Fernando ficou um tempo parado, sem saber o que fazer, enquanto via a amada se distanciando em passos que diziam não. Depois amassou o cartão e jogou-o ao solo, com alguma raiva e outro tanto de desamparo. Respirou fundo e buscou no ar as forças para enfrentar a tristeza do momento.

E naquele mesmo momento, resolveu não desistir: no ano que vem, eles vão estar juntos – Fernando tem certeza.

Aí já terão onze anos, os dois. E certamente ele não escreverá errado o nome da amada no cartão.


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