O GRITO (OS GRITOS)

Ninguém sabe de onde partiu o primeiro grito.

Foi um berro rotundo e forte, vindo de uma voz sem nome, e que atravessou a praça em busca de ecos que tivessem a mesma força. E logo já houve outro grito. O terceiro foi dado por várias vozes, diversos timbres e numerosas vontades, explodidas num repente palpável. Mas a quarta voz, além de gritar por justiça, também disse “quebra, incendeia!” e com ela se acenderam num átimo as sanhas dos que só querem para si.

Mas o grito. O grito levara anos sendo fabricado, tanto tempo hibernando em vida, que agora era difícil recolhê-lo aos peitos. Cheio de donos, e por isso sem dono (mas alguns, arrombando portas a pontapés, querendo dele se adonar). E o grito espalhou-se pela praça e impôs-se à noite, alcançando os ouvidos do que escutavam rádio ou olhavam televisão, dos que escolhiam feijão ou jogavam canastra, dos que tomavam cachaça ou buscavam amor, dos que chegavam do trabalho ou partiam para a faculdade, dos que já dormiam ou dos que ainda olhavam as estrelas. Assustou os que decidiam e os que escreviam. E chegou às pessoas como telefone sem fio - cada um o entendeu como quis ou pôde.

E depois o grito encheu a praça e ultrapassou-a, encheu as cercanias e ultrapassou-as, encheu a cidade e ultrapassou-a. Percorreu a noite e venceu o tempo e chegou às outras cidades, como se fosse senha. Chegou a Pouso Velho e encontrou eco; foi repetido em Barra do Peixe; em Campo Maduro não souberam gritá-lo, mas o povo cantou-o em Anunciação. Assim foi, estendendo-se como braço preênsil e espalhado, buscando a voz e os olhos das pessoas. Em todas as cidades, canto acordado, em praças e avenidas.

Mas já não é um grito só. Puxam-no para todos os lados, e há vezes em que aqueles que mais gritam são os que nunca quiseram escutar a voz dos outros. A voz de "quebra, incendeia!" tem a força que não deveria ter, e em portas, ônibus e carros ardem as chamas da intolerância. Esta voz não pode ser maior do que as boas vozes.

O grito está agora num suspenso. Para onde ele vai?


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