A CELA

Tem pouco mais de cinco metros quadrados, a cela em que o prisioneiro 466/64 gasta os seus anos. São simples e poucos os pertences que lhe permitem: além das roupas do corpo (mas está proibido de usar sapatos), ele tem direito a um colchonete, uma mesinha e um pequeno balde. Deram-lhe a liberdade irônica de poder usar o balde para o que quiser, como se isso fosse possível. Então o usa para as necessidades; o baldinho fica ao canto, a fim de que o cheiro seja menor – mas isso também não é possível, numa cela que é pouco maior do que uma caixa.

Quando lhe deixam sair da cela, é apenas para quebrar pedras. Correntes nas pernas, faz isso todos os dias, de domingo a domingo. Trabalha, junto com os outros companheiros de infortúnio, numa caverna. Ao fundo da caverna, há um espaço que é ao mesmo tempo banheiro e cozinha. Mas, sorriso amplo no rosto (de onde consegue tirá-lo?), ele também diz que aquele espaço é uma universidade: é ali que, nos poucos momentos em que os deixam descansar, ele ensina os demais. Ensina-os a ler e escrever, mas também tenta levar a eles o significado verdadeiro de algumas palavras: luta, cultura, justiça, liberdade.

Sempre que pode, ensina. E, enquanto ensina, aprende.

Quando termina de quebrar pedras, é hora de voltar para os cinco metros quadrados nos quais vive há quase vinte anos. (Vinte anos: é preciso repetir para acreditar.) Ganha sua pequena ração de comida e, às vezes, lê as raras cartas da família que lhe deixam chegar às mãos. Leva pouco tempo para lê-las; afinal, no mais das vezes, os censores riscam tudo o que está escrito e apenas deixam nas cartas os cumprimentos e as despedidas. Assim, as cartas que recebe se resumem a `como vai?” e “adeus”. Tão triste, isso.

Depois, até dormir, o que lhe resta é pensar.

Está preso por injustiça. Mais do que isso: está preso porque luta por justiça.

Qualquer homem comum pensaria em amarguras e vingança.

Mas Nelson Mandela não é um homem comum. E ele pensa muito mais alto.


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