AS FLORES DE MARÍLIA

No início, era uma surpresa alegre. Depois, não mais: agora é alegria pura. Marília acorda pela manhã e corre à porta da casa antiga em que vive e que, sem grades, pode permitir tanto mais assaltos quanto mais poesia.

E é de poesia que se fala.

Todas as manhãs, há uma flor colocada na soleira da porta. Começou há pouco mais de dois meses, e não falha um dia. São rosas, cravos, margaridas, crisântemos, gérberas, dálias, flores do campo (as que Marília mais gosta). No dia dos namorados, como se houvesse certo significado especial, havia uma orquídea cuidadosamente disposta sobre o capacho. Sempre sem cartão, sem indicação da floricultura – apenas a flor, imperiosa e bela, bastando diariamente a si mesma.

Marília não tem ideia de quem as coloque em sua porta. E na verdade, nem quer saber; não pretende estragar este momento bom do dia, pelo qual sem dar-se conta já dorme esperando, descobrindo quem lhe traga tanta gentileza. Ou será mais que gentileza? O que será, enfim? Deste mistério que acompanha as flores, Marília também gosta.

Nos primeiros dias, intrigada, até tentou descobrir. Perguntou ao vizinho, um madrugador que parecia acordar cedo apenas para ficar mais tempo mal-humorado, mas ele respondeu que não sabia de nada, que não havia visto nada e que tinha coisas mais importantes a fazer do que ficar bisbilhotando a vida dos outros.

Depois disso, não mais. Marília nem pensou em acordar mais cedo, tocaiar quem a homenageava. Não: que fique assim, esta recepção cheirosa e boa de todas as manhãs, este brilho de suspense com que inaugura o dia, esta incerteza alegre de não saber porque recebe as flores e que, ao mesmo tempo em que a deixa sem saber, também lhe concede a liberdade de sonhar que as flores venham de um admirador secreto, algum amor escondido.

As flores sem dono ou procedência são a melhor parte do dia de Marília. Instalam em seu rosto um sorriso que tarda em desaparecer.

E o sorriso de Marília também é o sorriso de seu vizinho – o homem que, em todos os finais de madrugada, coloca na porta da casa da mulher uma flor qualquer apenas para lhe iluminar o dia.


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