CENA DE CINEMA

Estamos no cinema, as primeiras luzes já foram apagadas. Há pouca gente na sessão, que deve iniciar daqui a alguns minutos. Uns poucos vão chegando, acomodando-se nos vários assentos sobrantes. O cinema, na verdade, está quase vazio. Na sala silenciosa e que espera o início do filme, se escuta o ruído dos sacos de pipoca, o estalo das poltronas, os cochichos breves.

E de repente, na fileira logo em frente à nossa, toca um telefone celular. É um homem quem atende, enquanto comenta baixinho, como se estivesse se desculpando, que precisará desligar o aparelho.

“Oi, filha!” – ele responde. – “Tudo bem contigo?” – e começa a conversar com a interlocutora. A voz baixa, sussurrada – mas isso não impede que, no silêncio do cinema, as pessoas próximas escutem a conversa, imaginando as respostas da filha do outro lado da linha.

“Nós estamos no cinema.” – um espaço de tempo - “Nem sei o nome do filme, sei que é uma comédia. Foi a Regina quem escolheu, vim por conta dela.” – ele ri brevemente, e há novo intervalo de silêncio – “Sim, ela está aqui do meu lado, está te mandando um beijo.” – outro silêncio – “Pode deixar que eu mando o teu beijo para ela, com o maior prazer.” (uma risada, talvez a filha ria também do outro lado da ligação). – depois, o homem parece estar escutando uma pergunta, alguma frase mais longa, pensa um pouco para responder – “Pode ser, sim... pode ser que eu e a Regina vamos até aí depois do filme...” – depois repensa – “...mas não, acho que não...fica para outra hora. Depois do filme, a Regina e eu vamos jantar fora, tomar um vinhozinho, namorar um pouco... vocês entendem, não é, filha?” – a filha parece concordar do outro lado da linha, o homem sorri com certo constrangimento. – “Isso, fica para a próxima...”

Então a luz apaga e a tela acende, já estão iniciando os comerciais e o pedido para que as pessoas desliguem seus aparelhos celulares.
Ele comenta isso com a filha, a voz cada vez mais baixa. Depois se despede, desliga o telefone e prepara-se para assistir o filme.

Não há ninguém ao seu lado.


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