TODAS AS HISTÓRIAS DÃO UM LIVRO

Estou tomando café na confeitaria próxima à minha casa quando a mulher se aproxima.

“O senhor é que é o poeta.” – diz, como se perguntasse.

Explico que não, que não sou poeta. Escrevo contos, romances – sou escritor. Raramente escrevo poesia – e quando o faço, é sem nenhum talento.

Mas para ela, isso pouco importa. O que ela quer – sei – é que eu a escute.

“Se o senhor escreve, preciso lhe dizer: a minha vida daria um livro.”

E, ao mesmo tempo em que me pede licença sem pedir, senta-se para me contar sua história.

A mulher começa a falar e a verdade é que pouco presto atenção ao que diz. São tantas as pessoas que aparecem com suas vidas prontas para serem escritas, são tantos os relatos que se apresentam, são tantas as pessoas – em suas existências iguais e únicas – a pensar que suas histórias dariam livros, que faltariam páginas para escrevê-los todos. Eu sei disso.

Mas os olhos da mulher enquanto me fala. Ah, os olhos!

É nos olhos dela que presto atenção. Uns olhos de tanta intensidade, que acreditam com tanta força na força de sua história, que me contam mais do que todas as palavras que a mulher diz. São os olhos, mais que o relato, que pedem que eu a escute.

Não há nada de mais no que a mulher me conta. É uma história de dificuldades, de alguns desamores e desencontros, igual a tantas outras. Bela e triste como milhares. Tantos livros a serem escritos, penso eu.

Ela fala durante uns dez minutos, enquanto tento ler seus olhos. Quando termina, dá um breve suspiro, certo alívio sem nome e que certamente vem do fato de ter encontrado alguém que a escutasse. Pergunta o que achei e respondo que sim, que a história é boa e linda – mas que também é só dela. Por isso, não pode ser escrita.

Ela se surpreende. Mas logo depois levanta-se e sorri – e seus olhos me contam um pouco mais.

“Eu sabia que o senhor ia me entender.” – diz ela – “Afinal, o senhor é um poeta.”


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