O CASAL NO RESTAURANTE

Logo depois que me acomodo para o almoço, o casal entra no restaurante. Ela é bem mais velha do que ele, terá talvez trinta anos a mais – o que, por óbvio, faz com que todos no lugar prestem atenção a ambos. Poderiam parecer mãe e filho, mas logo se percebe que são namorados. No entanto, seus olhares são diferentes: ele tem nos olhos uma paixão assustada; nos olhos dela brilha a luz da despedida.

Sentam-se distantes da minha mesa, o que me impede de escutar o que dizem. Mas não consigo deixar de observar seus gestos, maneiras – o almoço esquecido à minha frente.

Ele está de costas para mim; ela percebe minha atenção, no momento em que nossos olhares se cruzam.

É ele quem fala, percebo. O jovem gesticula e, mesmo sem enxergar-lhe os olhos, consigo ver sua aflição. Suas mãos dançam com alguma leveza e, de repente, pousam nas mãos inertes da mulher. Ela as tira com delicadeza, mas diz algo duro a ele – sei disso, pela mirada que destina ao namorado.

Ele tenta outra vez se aproximar e acaricia de leve o rosto ainda belo da namorada. Ela recebe o carinho com certa dureza incomodada e, naquele momento, tenho a certeza que a conversa é definitiva, porque ela não quer mais; os dois não sairão juntos do restaurante.

Quando ele busca novamente a mão da mulher, ela a retira com alguma rispidez e provavelmente diz a ele que não tente mais aquilo, que está tudo terminado. Depois segue dizendo o que não escuto, mas adivinho: diz duramente o que se diz nestas horas. Todo o restaurante presta alguma atenção no casal. A mulher sabe disso - percebo em sua mirada incômoda quando, enquanto ainda termina com palavras escolhidas o seu namoro com o garoto, olha outra vez para mim.

E então ele começa a chorar. Desamparo, desamparo.

O choro do jovem parece ser o álibi que a mulher esperava. Ela se levanta com a serenidade possível, como se apenas estivesse indo ao toalete, mas sei que não voltará à mesa - carrega a bolsa e seus passos tem o jeito exato de quererem a saída.

Quando passa por mim, percebe ainda outra vez o meu olhar indecorosamente atento. E então me diz, enquanto já vai embora e como se buscasse alguma cumplicidade.

“Estes jovens de hoje se apaixonam muito fácil."


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