OS ANÉIS

É tudo um barro só. Barro lodoso, sujo, pestilento, o cheiro das ramas podres e do lixo que as águas escuras do arroio trouxeram quando invadiram a rua e as casas. Agora que as águas baixaram, voltando ao leito em que correm nos seus dias comuns, ela olha as paredes e é uma marca amarronada e triste que divide a casa seca da casa molhada para sempre.

Ainda é cedo demais para inventariar as perdas. Há pessoas que estão sem nada, ela sabe. Gente que está sem teto, sem cama, sem roupa. Cachorros subitamente sem dono e sem rumo. Crianças cujos brinquedinhos tão capengas quanto únicos se perderam nas águas barrosas que encheram de um espanto assustado as suas vidas ainda pequenas. Há ao redor de toda esta tragédia uma corrente tanto de desolação quanto de solidariedade – quem perdeu pouco acha espaço para ajudar quem perdeu muito, quem perdeu muito prepara um café para quem perdeu pouco. E o contrário, também.

Ela ainda não sabe o que perdeu.

Porque o que a angustia agora, nesta hora em que começa a descobrir o que se foi, são os anéis de seus filhos. São dois símbolos, pequenas jóias que ela lhes presenteara quando os gêmeos haviam completado um ano e que não estão na caixinha de música que, na pressa, ficara esquecida na parte alta do armário – e que a água levara para qualquer lugar, descaso com toda aquela necessária memória. Os anéis dos seus filhos são o que há de mais importante – não podem ter sido levados, não podem

Como se nada mais houvesse ou importasse (talvez seja isso mesmo), ela os procura pela casa, um pouco sem norte, na esperança de que as águas tenham dela se apiedado - ao menos um pouco. Que levassem a televisão, a cama, as roupas, o sofá – mas que não lhe levassem a lembrança que também lhe é força e alma. Procura pela casa inteira, numa esperança sem rumo – a caixinha estará por aqui e os anéis estarão dentro dela, quer acreditar.

De repente, presa por milagre ao pé do fogão, ela enxerga a caixinha. Dentro dela, em milagre duplo, os dois anéis repousam num sono molhado e tranqüilo.

E só então ela se permite chorar. Chorará o tempo necessário e suficiente, finalmente olhando para o resto (restos) da casa, e então começará a limpeza.

Afinal, os anéis não se foram.


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