O BARBEIRO

Há quase duas décadas não venho à cidade em que cresci. Por isso, percorro com certa ansiedade tímida estas ruas que não sei mais, buscando certas nesgas familiares, adivinhando contornos e prédios, mas é tudo muito raro. Tento também enxergar nos rostos dos passantes algum olhar conhecido, qualquer amigo de infância ou colega de escola, mas também nada. Esqueci minha cidade; ela hoje é uma estranha para mim.

Então entro na barbearia – preciso fazer a barba para o compromisso de hoje à noite, o aniversário do único primo com quem mantenho contato desde que meus pais morreram.

“Bom dia, senhor.” – me cumprimenta o barbeiro, um homem gordo e de óculos, jaleco branco e impecável, o ar antigo das cidades pequenas.

Devolvo o cumprimento e sento na cadeira que ele me oferece. Apenas a barba, peço, bem caprichada.

O homem prepara sem pressa o creme de barbear, enquanto me olha num silêncio sem expressão. Mas fala quando começa a espalhar o creme em meu rosto:

“O senhor não está me reconhecendo, mas eu logo o reconheci. Nós fomos colegas de aula.” – ele fala muito corretamente, o que não me traz qualquer pista. – “O Gelson, lembra? Claro que não vai lembrar, nunca falou comigo. Mas do meu apelido talvez o senhor lembre.” – ele pára um instante, enquanto esfrega o creme de barbear – “Porco Quatro-olho, lembra?” - (e eu lembro) - “Eu era gordo, tímido e usava óculos e a turma toda zoava de mim. O tempo inteiro, não se recorda? Todo mundo, eu era o capacho da sala. Ninguém para ser meu amigo, todo mundo para me esculhambar. Eu detestava ir na escola, sentava sozinho na sala, o recreio sem falar com ninguém ou, o que era pior, sendo zoado. O tempo mais horrível da minha vida.” – ele olha a parede, como se falasse apenas consigo mesmo, depois volta-se para mim, enquanto segue esfregando o creme de barbear em minha face. – “O senhor sabe que tem gente que sofre isso na escola e depois nunca mais se recupera? Fica recalcado a vida inteira, vez por outra a gente vê na televisão a notícia de um desses que sai por aí matando gente, fazendo bobagem. Coisa triste. Todo mundo condena mas ninguém sabe o quanto esta pessoa sofreu. Eu, por exemplo, era o Porco Quatro-olho. Sabe lá o que é ter este apelido? Uma tristeza, o senhor sabe? Uma tristeza...” – para ainda um instante e pega a navalha aberta no balcão. – “Mas o tempo passa e ainda bem que eu superei...”

Olha novamente para a parede, como se pensasse no que recém havia dito. Depois, encosta a navalha em meu pescoço e pressiona-a com suavidade contida.

“Se bem que, vez em quando, ainda bate uma raivinha...”


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