O MEDO EM QUE ELA VIVE

Susara está sozinha no ponto de ônibus, no meio desta noite sem lua. Normalmente, há outras pessoas esperando a chegada do coletivo, mas hoje – estranhamente - não há ninguém. Ela sente o desconforto, a tensão desta solidão inesperada e escura, e olha para os lados, na esperança dividida de que chegue alguém e de que ninguém chegue. Olha o relógio, os minutos não passam - medo meio sem nome.

O homem que chega tem um andar soturno e triste. É grande e está mal arrumado; parece haver saído às pressas de algum lugar. A mulher tenta não olhá-lo, mas é impossível – ele a cumprimenta em voz alta, e em seus olhos há um brilho sombrio que arrepia Susara, sem que ela saiba exatamente a razão. Tem medo, ela, um medo súbito; de repente não está mais só, e isso a assusta. Mas é estranho, este medo: não é exatamente do homem que chegou, mas da lembrança inexata que os olhos dele lhe trazem.

De repente, aterrada, ela percebe: o desconhecido tem o mesmo olhar de seu ex-namorado. O homem que passara da paixão à violência de um dia para o outro, que a tratava como posse, que lhe controlava as roupas e movimentos, não a deixava olhar para os lados quando estivessem juntos. E que, quando ela enfim teve forças para dizer que não o queria mais, lhe aplicara uma surra que a deixara dias sem conseguir mover-se direito. Uma semana depois, num arrependimento bêbado, gritara em frente à casa de Susara que tudo o que fizera tinha sido por amor. Ela havia chamado a polícia, apavorada, e ele gritara que ela era a mulher da sua vida, e que eles ficariam juntos, com certeza.

O monstro.

Desde então, os dias de Susara são um sobressalto. Cada ruído na rua é um susto. Cada sombra na esquina é um pânico, o silêncio à noite em casa é cheio de horrores. Em cada pessoa, a chance de uma lembrança – e o novo medo. Os olhos deste desconhecido talvez nem lembrem verdadeiramente os do namorado, mas.

E então o ônibus chega, Susara sobe sem pensar.

Só quando ele arranca, é que ela se dá conta de que não vira o número da linha. Não sabe se é este mesmo o seu ônibus.

Mas não faz mal, pensa ela. O que importa é sair dali.


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