PARA TI, ESTE RAMALHETE

Não te trago estas flores por qualquer data especial. Não há nada de mais a comemorar: não é hoje o teu aniversário, ainda não ganhaste a promoção que tanto esperas, não tiveste qualquer vitória maior que aquela de vencer o próprio dia.

Não, não te ofereço estas flores porque hoje é o dia de ou a data de, nem porque eu as tenha prometido ou as estejas esperando.

Não, o motivo é tão mais simples, tão mais fácil.

É que vim recolhendo as flores pelo caminho. Não colhi nenhuma. Elas estão por toda a parte, nas ruas e nas calçadas, nos pátios e nos telhados, despencando destas maravilhas multicores em que estão transformadas as árvores, e bordam milhares de pequenos tapetes que enfeitam a cidade inteira. Quando o vento sopra, os tapetes voam; e quando descem, já estão transformados em outros, ainda mais coloridos. Um tapete de pétalas amarelas se junta às flores vermelhas e todas pegam carona no vento da primavera, buscando encontrar o amarelo – quando o vento se vai, forte e quente, há um novo arco-íris deitado no canto da rua.

São estas as flores que recolhi, ao acaso. Uma ou outra, se bem reparares, estará pisada pelos meus passos – mas isso não as enfeia, antes lhes empresta um certo jeito de vida comum que só deixa sua beleza recolhida ainda mais verdadeira. As outras, não; mas nelas certamente há o peso de outros passos, a poeira cotidiana das ruas, pingos da água guardada da chuva. Porque estavam no chão, nas calçadas.

Não são perfeitas, estas flores – é isso que a torna mais belas. E estão por todos os lados, oferecendo-se aos olhos e aos olfatos, porque é primavera.

É apenas por isso que te trago este ramalhete: porque é primavera.

E para que a beleza das flores se apresente à tua.


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