AQUI TEM –

Jogávamos bola todos os dias e em todos os recreios, até que o segundo toque do sino nos mandasse para a aula, com suas ordens de bronze, e chegávamos à sala suados como se recém houvéssemos disputado uma Copa do Mundo. Mas aquele dia era diferente, era mais que a Copa do Mundo – no recreio iríamos decidir a Copa da 6ª Série, jogando contra a Turma 603. Mas, especialmente, iríamos enfrentar os terríveis gêmeos Germano e Geraldo, dois brutamontes que chutavam cachorros, atiravam pedras nas casas dos vizinhos, amarravam latas nos rabos dos gatos e, mais ainda, se divertiam dando porrada nos garotos menores – no caso, todos nós.

Não sei o que me deu quando disse que deixassem o maior comigo. Os outros me olharam como se eu estivesse louco, mas concordaram.

No primeiro lance, o gêmeo veio como um trem em minha direção. O senso de sobrevivência mandava que eu saísse da frente, mas em vez disso mantive a perna esticada, e foi com certa surpresa que todos vimos aquele enorme trem descarrilar. Do chão, o gêmeo me olhou como se não acreditasse e apenas me fez um sinal – eu estava prometido.

Mas no lance seguinte, vestido com certa coragem doida que vinha não sei bem de onde, deixei o corpo em frente à corrida do gigante. Naquela hora caímos ambos – mas percebi certo brilho de admiração contrariada no olhar que ele me deu. Devolvi o olhar e falei, sem saber bem o que queria dizer:

“Aqui tem, meu! Aqui tem!”

E então o grande gêmeo não chegou mais perto do nosso gol.

A partida foi uma peleia braba (como sempre), chutões para frente e de tudo quanto é lado - mas os gêmeos, sei lá porquê, ficaram mais pelo meio campo, e acabaram não jogando grande coisa. Ficamos o recreio inteiro maltratatando a bola e, ao final, perdemos para a 603 por cinco a quatro. O último gol do outro time foi feito com a mão, mas como não tínhamos juiz, precisaríamos discutir isso no braço – o que não parecia uma boa idéia, quando sabíamos que, no outro time, estavam Germano e Geraldo. E, todos sabíamos, haveria outra copa na semana ou no mês seguinte.

Quando saíamos do campo, suados e nada prontos para a aula de Matemática, o gêmeo me deu um tapinha nas costas, tipo um cumprimento:

“Aqui tem, mesmo! Marcação dura!... ” – disse ele.

E foi como se eu houvesse ganho o campeonato.


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