AMOR NÃO RIMA COM BAR

Chego ao saguão do hotel com um sorriso que mal esconde minha ansiedade e pergunto ao recepcionista:
“A senhorita Jaqueline, por favor? Está no apartamento 403.” (senhorita, digo eu - e me surpreendo comigo mesmo).
Enquanto o rapaz verifica se Jaqueline está no hotel (estará, sim, porque é isso que combinamos), eu penso nas surpresas boas que a vida, às vezes, nos reserva.
Ontem, saí sem alegria e sem destino pelos bares da cidade, resignado desde o início a encerrar outra vez a minha noite no meio da solidão. E de repente, no segundo ou terceiro bar em que entrava e me sentava solitário numa mesa de canto, lá estava aquela mulher linda, muito além das minhas parcas possibilidades de conquista. Ela sorriu para mim, enquanto eu me sentava, e naquele instante pareceu que todas as luzes do bar haviam sido acesas. Então me chamou, com um sinal – e eu fui.
Ela me convidou para sentar à sua mesa. Estamos ambos sozinhos, disse, não conheço ninguém nessa cidade, daqui a três dias vou embora e hoje à noite estou querendo conversar. Vamos dividir nossa solidão, riu Jaqueline (ela já havia se apresentado, então). Vamos conversar, cada um contando um pouco de sua vida - pediu.
Ninguém nunca havia me feito uma proposta igual. Sou sempre aquele que acaba a noite conversando bobagens com o garçom. E claro que aceitei. Uma mulher linda.
Ficamos a noite inteira conversando, tantos assuntos em comum, e às horas tantas eu já estava apaixonado (ai, os solitários, como nos apaixonamos fácil!). De repente Jaqueline pegou em minha mão, um calor tão bom. Mas quando tentei seguir adiante, ela me conteve com leveza.
“Hoje à noite, vamos só conversar.” – pediu. – “Mas vá amanhã às sete ao meu hotel, quem sabe.”
É o que faço agora, ansioso. São sete em ponto, carrego uma rosa esperançosa e nem percebo que minhas mãos suam, enquanto espero que o recepcionista me diga que posso subir, que dona Jaqueline me aguarda.
Mas ele mal levanta os olhos para mim enquanto responde:
“Dona Jaqueline foi embora hoje pela manhã.”


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