AS PALAVRAS DA CASA

Aquela casa é centenária, dissera a mãe. Para Leleco em seus seis anos, a frase tinha um tanto de fantasmas e assombrações, mistérios e aventuras. E foi por isso que resolveu explorá-la.

A casa era antiga e vazia, mas não tinha jeito de abandonada – parecia que havia alguém morando nela ainda há pouco – e Leleco não teve medo de explorá-la sozinho, espada de pirata na cintura para qualquer perigo que aparecesse.

Andou pela casa inteira, vasculhando seus claros e escuros, as peças, os vazios, as teias de aranha, a madeira arranhada das portas, o descascado solene das paredes, o sol invadindo as frestas das janelas, a poeira antiga dos tijolos polvilhando o piso, a madeira secular das vigas, a leveza de todo aquele ar. Mas não encontrou nenhum fantasma – decepção aliviada aos seus seis anos.

Quando estava saindo, escutou a voz. Voz antiga, solenidade medida. Voltou-se, um pouco assustado, e tranqüilizou-se ao perceber que não era qualquer monstro ou assombração – era a própria casa quem falava.

Então, curiosidade como nunca tivera em toda a vida, Leleco acomodou a espada, sentou-se numa tábua ao lado das paredes e decidiu escutar o que a casa tinha a falar.

E ela então lhe contou uma enormidade de histórias boas, desfilando sois e chuvas, dias e noites, meses e anos, invernos e verões, alegrias e tristezas, ventos, pessoas e memórias.

O tempo, contou-lhe a casa.

Leleco, fascinado, escutando todas as tantas histórias da casa velha. Horas de magia sem nome, só terminou quando escutou o chamado imperioso da mãe. O terceiro chamado imperioso da mãe.

Entrou correndo pelo pátio, curioso, e só parou quando encostou o ouvido na parede de sua própria casa.

Mas foi só um silêncio, o rumor incapaz dos tijolos colocados há poucos anos.

Leleco não escutou nada – e deu-se conta, naquele instante, que talvez as casas novas não tenham histórias para contar.


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