TIA ESTER

Agora me contam que tia Ester morreu e é como se me dissessem que o cachorro do vizinho fugiu, que algum colega de trabalho quebrou o braço, nada mais. Nenhuma emoção maior, nenhum baque: tia Ester era uma estranha para mim.

Porque já fazem mais de cinquenta anos que a vi pela última vez. Eu era um menino de cinco anos e tia Ester lá em casa era um furacão a afrontar os olhares conservadores da família. A mulher que fumava - em público! -, a mulher que vestia calças compridas, que tinha o seu próprio automóvel e ria alto, sem medo. Para mim, era uma festa. Mas, às irmãs, era uma espécie de acinte sem motivo, sinônimo de briga, de confusão: para que ser assim, perguntava minha mãe – eu me lembro.

E de repente, ela desapareceu. Foi morar em outro estado, outro país. Como se aqui fosse pouco, muito pequeno.

E ao longo dos anos, o nome de tia Ester sempre foi pronunciado com uma espécie de manto em sua frente, como se fosse errado relembrá-la: melhor esquecê-la e deixá-la em sua vida desregrada, pareciam pensar as irmãs. No começo, ainda houve algumas visitas tensas, nas quais tia Ester trazia consigo a explosão de seu riso e que invariavelmente terminavam em discussões insolúveis; nestas vezes, minha mãe sempre me deixava estudando no quarto e depois passava dias inteiro imersa num nervosismo desabrido. Meu pai culpava tia Ester por isso. Depois, as visitas foram rareando – e quando minha avó morreu, cessaram de vez.

A imagem de tia Ester se manteve igual para mim, jovem e imperiosa aos meus olhos de cinco anos. Nunca mais a vi, nem sua história chegou com muitas forças aos meus ouvidos. Era sempre de uma maneira velada que chegavam até nós as suas novas peripécias, suas aventuras, o novo lugar em que morava; qualquer comentário era também reprovação.

Cinqüenta anos e agora me contam que tia Ester morreu. Morreu há milhares de quilômetros desta cidade, e ninguém de minha família pode ir ao funeral – todos já tão velhos. Tão longe e tão sozinha, chorou minha mãe, vencida.

Tia Ester foi enterrada lá mesmo onde morava.

Ao lado de Vanda.

Vanda – aquela a quem minha avó chamava de Vando, cheia de desprezo, e cujo nome era proibido de ser dito pelas crianças.


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