OS MILAGRES SIMPLES

Felipe andava pela rua com a pressa comum dos que trabalham, quando ouviu o grito de socorro, vindo de um prediozinho descascado logo ao lado da funerária. Era a voz de um homem, e naquele uivo parecia haver tanto desespero que Felipe só deu por si quando já estava na sala de onde havia partido o pedido de socorro. No sofá, acomodada do jeito que lhe permitia a enorme barriga, uma mulher gemia e arfava.

"Minha mulher vai ter um filho agora! A bolsa estourou!” – disse o homem – e desmaiou.

A desconhecida olhou para Felipe com uns olhos de súplica e esperança e apenas conseguiu pedir:

“Você me ajude, moço, senão eu morro!”

Naquele instante, Felipe soube, mesmo sem saber, que não poderia ficar parado – eram duas vidas ali. Afastou as pernas da mulher, recostou-a o quanto possível, umedeceu um pano de prato na cozinha minúscula logo ao lado e passou-o sobre o rosto afogueado da quase mãe. E então ordenou, como se houvesse nascido sabendo:

“Força, moça! Faz força que eu ajudo e seguro o seu filho!”

Ela então fez todas as forças que as mulheres tem (o marido ainda desmaiado, logo ao lado), Felipe auxiliando com a vontade toda de sua inexperiência, guiando-a e gritando tanto para encorajá-la quanto para afugentar seus medos. Quando, depois de um tempo, a cabecinha do bebê surgiu completa e enrugada, ele a amparou e puxou-a com todo o cuidado do mundo. Aí conseguiu sorrir e atinou de dizer à mulher:

“Acho que é um garoto.”

Ela também riu (um sorriso breve, o alívio de que as coisas estão indo bem) e seguiu fazendo força. Quando o corpo inteiro do bebê apareceu (era, sim, um menino), Felipe colocou-o junto ao seu próprio corpo e lembrou das cenas dos filmes, da palmadinha na bunda para que a criança chorasse e respirasse o primeiro ar de sua vida. Bateu com cuidado e o garoto explodiu num choro de vontade, enquanto a mãe, exausta e linda, também começava a chorar.

Então Felipe depositou o bebê no colo da mulher, para que ambos se sentissem e apenas ficou ao lado, maravilhado e ainda sem saber mesmo o que era tudo aquilo. Ficaram assim alguns minutos, até que a desconhecida pegou em sua mão e perguntou-lhe o nome.

“Felipe.” – disse ele.

“Vai ser o nome do meu filho.” – disse ela.


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