EU TE AMO

Antonio anda feliz como cachorrinho novo. Há três semanas, depois de sabe lá quantos meses de marchas e contramarchas, avanços e recuos, finalmente conseguira começar o namoro com Isabel. Nossa Senhora do Céu, pensa ele! Isabel tão linda, tão maravilhosa, uma boneca, tanta areia para o seu pobre caminhãozinho – o trabalhão que tivera para conquistar a mulher!... Enorme empenho, tentativas, intrincadas estratégias – ganhar uma guerra seria mais fácil, mas muito menos importante.

Mas valera a pena o esforço. O fato é que nunca antes namorara alguém que tão completamente o completasse. Com Isabel, Antonio sente-se pleno, passos leves sobre as nuvens. Ele, que a vida inteira fora um tosco, sempre bronco, de repente se sente o homem mais romântico de todos. Não fosse o ridículo de carregá-las na rua, até flores compraria para Isabel.

Ah, Cupido acertou em cheio quando lhe flechou o peito, admite Antonio. Está apaixonado. Mais do que isso: difícil ao seu coração duro admitir, mas a verdade é que está amando. E é o que agora, talvez pela primeira vez na vida, ele dirá a uma mulher. Aguarda por ela neste café, respiração aos saltos, apenas para dizer-lhe que a ama.

E é o que faz, tão logo Isabel senta-se à sua frente. Sem esperar, sem dar chance à desistência.

“Eu te amo.” – diz ele, palavras em fogo.

A mulher enrubesce, sorri.

“Oh, que coisa linda!” – diz ela. – “Assim eu fico emocionada!...” – e cobre Antonio com beijos carinhosos.

Mas, até o final do café, não diz que o ama.

******

Uma hora depois do café e Antonio está em casa, sozinho, pensando na não-resposta de Isabel. Tanto ensaio, tanto suor nas mãos, tanto medo vencido, tanta coragem e bravura, apenas para ela dizer que aquilo era lindo e que ficava emocionada? Ora, mas que pataquada era aquela? Onde já se viu a mulher receber uma declaração daquelas e não dizer ´eu te amo´ também? Onde já se viu? E quem dona Isabel estava achando que era? E, pensando bem, ela nem era tão maravilhosa assim...

Acho que está na hora de terminar com este namoro, pensa Antonio.


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