PEQUENOS NATAIS

Devem ter começado a trabalhar na loja no mesmo dia, contratados temporários que foram para esta época de Natal e Ano Novo. Ele, no departamento de móveis; ela, no dos eletrodomésticos.

Anderson nem sabe o nome da provisória colega. Mas desde que a viu, ainda na sala de recursos humanos da filial, soube que ela era uma das mulheres mais bonitas que poderiam aparecer em sua vida. Ele não é muito bom em definições, mas se tivesse que usar uma palavra única para definir a beleza da colega, esta seria ´perfeição”.

A garota não olhou para ele, nem naquela hora e nem depois; certamente, não sabe que Anderson existe. Mas ele, ah, ele! – no dia seguinte, imaginação e sonhos funcionando sem parar a noite inteira, já estava apaixonado por esta mulher de quem sequer sabe o nome. Mas quem ainda acha que manda em seu coração? – pensa Anderson.

Desde então, sempre que pode, ele dá uma escapada breve até o setor de eletrodomésticos, para tentar ver – nem que seja por um instante – a beleza ainda desconhecida da colega. Vê-la é uma maravilha breve; mas também é uma espécie de sofrimento, porque nunca há o tempo de falar com ela, trocar nem que seja algumas palavras para que a garota o enxergue e passe a saber de sua existência. Precisa que ela o note, pensa Anderson.

Por isso, esta tarde aproveitou a hora do lanche e correu a uma lojinha próxima. Comprou uma gargantilha em imitação de prata, tão bonita quanto seu dinheiro alcançasse, com um pingente pequenino em forma de coração. Vai presenteá-la na saída do expediente hoje, sem dizer uma palavra, a boa desculpa do Natal – amanhã certamente estarão conversando.

****

Ele aguarda a garota na saída da loja, ansioso, pacotinho trêmulo nas mãos suadas. Mas quando ela aparece, é uma tristeza – vem abraçada a outro colega temporário, beijam-se com certa leveza no mesmo instante em que colocam os pés para fora do estabelecimento.

Anderson não diz nada, tenta não olhar para o casal enquanto esconde o pacotinho.

Mas amanhã dará um jeito de entregar o presente à colega, ainda assim. Porque é Natal – e afinal, pensa ele novamente, quem consegue mesmo mandar em seu coração?


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