MONTEVIDÉU

O velhinho entra vagarosamente no café, a porta é pesada e a bengala às vezes atrapalha estes movimentos. A garçonete percebe e corre a auxiliá-lo, mas ele faz um gesto que é, ao mesmo tempo, negativa e hombridade. Pode deixar que entro sozinho, diz o gesto do senhor.

Ele se instala, miúdo, numa mesa ao lado da janela e olha por um tempo o cotidiano sem pressa que começa a se instalar na rua – as pessoas, as vitrines, os carros, os ruídos, as cores. Depois, sem olhar o cardápio que já estava na mesa, pede uma taça de café preto e uma media luna com manteiga. A garçonete sorri e brinca, com leveza:

“Como se eu não soubesse.”

O homem também sorri, mas sem entregar-se; há certa rabugice simpática em seus gestos.

Quando chegam o café e a media luna, o senhor examina-os com os olhos, como se fossem algo novo. Depois, sorve um gole curto do café e fecha os olhos, sabor e sensação. Prova o confeito e fecha os olhos outra vez, pequenos prazeres da vida.

E então divide sua atenção entre o café, a media luna e o movimento da rua. A garçonete, depois de um tempo, aproxima-se da mesa apenas para provocá-lo com carinho, lembrá-lo que o café à sua frente já deve estar gelado (quantas vezes terá dito isso?). Ele não responde. Faz apenas um movimento com a mão direita, que é ao mesmo tempo agradecimento e pedido de que ela o deixe em paz. Mas depois não evita um sorriso pequeno, enquanto toma outro gole do café e percebe que, sim, ele está completamente frio.

“Está ótimo, o café. Bem quentinho.” – diz ele.

Ela sorri outra vez – porque sabe.

O velhinho termina o café e come um último pedaço de sua media luna. Coloca o dinheiro sobre a mesa e diz à garçonete, como sempre, que está deixando mais gorjeta que ela merece. Ela ri e responde que é pouco, mereceria muito mais por aturar tanta ranzinzice. Ele faz outro gesto com a mão, que não quer mesmo dizer nada, depois se despede e segue o seu caminho – agora é paisagem na rua.

Amanhã estará de volta. E depois de amanhã.


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