AS OUTRAS COISAS, COMO ELAS SÃO

Ando apressado pela rua, em direção ao próximo compromisso, quando encontro o meu amigo escritor. Está com ar preocupado, parece que algo o incomoda, e acho melhor não perguntar nada – a minha pressa. Mas ele não percebe esta circunstância; começa a falar sem que eu pergunte.

“Che, não imaginas minha incomodação por estes dias! Publiquei um continho em que um marido que acha que está sendo traído vai conversar com um amigo, para buscar consolo, conselhos. E no final da história, se descobre que o amigo é o amante da mulher do personagem! Historinha simples, banal, até meio besta. Mas inventei de escrever na primeira pessoa do singular e agora tem um monte de leitores pensando que sou eu mesmo o sacana! Parece que o pessoal às vezes não entende que escrevo ficção! Que as histórias que conto são inventadas!...”

Digo alguma coisa, não sei bem o quê – na verdade, penso mais no meu compromisso do que no problema do meu amigo escritor. Mas ele segue em sua ladainha, como se aquilo fosse importante para mim:

“As pessoas acabam sendo injustas. Já disse. Escrevo umas historinhas bem simplesinhas, sem maiores pretensões, às vezes até meio rasas. Mais para divertir, passar o tempo, do que qualquer outra coisa. Uma ou outra, claro, até pode ajudar a pensar. Mas aí o pessoal acha que todas as histórias que escrevo obrigatoriamente acontecem comigo. Olha só: se todas elas acontecessem mesmo, como é que eu ia ter tempo de escrevê-las?” – e ele ri, um pouco desacorçoado.

“O povo é meio burro, mesmo!” – falo, apenas para dizer algo. Mas ele me olha com certa surpresa desapontada, enquanto discorda:

“Não, o leitor não é burro! Talvez eu não esteja me fazendo entender direito!”

“Pode ser, também.” – e concordo com ele.

“Preciso escrever melhor.” – ele completa.

“Sim, pode ser.” – eu concordo novamente.

A bem da verdade, vou concordar com qualquer coisa que meu amigo diga, a fim de me livrar logo deste ramerrão. Não quero entrar em conversas mais alongadas com ele. O problema não é dos maiores e o fato é que, agora, não me sobra muito tempo para escutá-lo – meu compromisso.

Daqui a vinte minutos, tenho um encontro com a mulher do escritor.

E ela detesta que eu me atrase.


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