MÃOS DADAS

Morreu há pouco o seu companheiro de mais de cinqüenta anos. Cinqüenta anos não são cinqüenta dias: são um tempo incontável. Uma vida inteira juntos.

Neste meio século, nesta existência toda, ela pode contar nos dedos das mãos as noites em que dormiram separados: o colchão, hoje, tem o formato de ambos, guarda os contornos e o peso dos corpinhos que foram mirrando ao passar dos anos, envelhecendo sem dar-se conta, e que dormiam, no mais das vezes, de mãos dadas. O costume antigo de dormir com os dedos entrelaçados, comentavam os amigos mais novos, entre despeitados e respeitosos – e eles apenas sorriam, pra que dizer algo?

Cinqüenta anos.

Sabiam um do outro pelo olhar. Nenhuma palavra, sem perguntas ou respostas, e ambos sabiam – sempre. Ele arqueava as sobrancelhas de um modo e ela sabia: irritação grande. Ela assoviava baixinho, olhando o nada, e ele achava passar ao largo por umas horas. Depois, a sobrancelha voltava ao normal, o assovio se terminava em *****, já estavam eles juntos novamente, e pronto: naquela noite, dormiriam de mãos dadas.

Ela procura agora a mão dele, encosta a cabeça no travesseiro ao lado: nada. Por cinqüenta e tantos anos, esteve ali e não está mais.

Saíam à tardinha para dar a volta na quadra, sempre o mesmo caminho, talvez os mesmos comentários: mas quem diz que isto era chato? As frases se renovam com os dias, a pergunta de ontem não é exatamente igual à de hoje. Os passinhos velhos de ambos, a vizinhança cumprimentando com seus sorrisos tranqüilos, os cães nos pátios latindo apenas por latir, os cuidados maiores nas lajotas desparelhas em frente à padaria. Paravam e compravam dois, às vezes três pãezinhos. Depois tomavam café em casa, dois potes de margarina na mesa: ele preferia tudo bem lisinho, ela esburacava a pasta com a faca de ponta arredondada, e não é necessário brigar por tão pouco. Só vale a pena discutir os assuntos que valem a pena, eles haviam descoberto na passagem dos anos.

Os anos. Cinqüenta anos.

E agora a dor é maior do que este meio século. Procura a mão do companheiro no outro lado da cama e ela não está: não saberá dormir assim sozinha, nunca.

Se eu fechar os olhos e não conseguir mais abri-los, que bom – ela pensa. Assim conseguirá encontrar a mão amada.


Outros Contos


ALI, LOGO AO LADO, AGORA

O MEDO INVISÍVEL

POR ONDE ANDARÁ RICARDO?

ALICE NÃO MORA MAIS AQUI

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

A CIDADE EM OLHOS DE PASSADO

EDUARDO, QUE ESPALHA ESTRELAS

O PRIMEIRO AMOR A GENTE NUNCA ESQUECE

A NOVA VIZINHA

OLHOS DE GATA SELVAGEM

MANDOLATE

A GAROTA NO ÔNIBUS

O OLHO

A PROFESSORA

O HORROR

AS FLORES DE MARÍLIA

O IPÊ

A VIDA

A ESCOLA

O CALOR

 

 

 
 

 


Prêmio que agraciou Henrique Schneider é um dos principais concursos do Brasil


Entrevista: o processo de criação de Setenta


Henrique Schneider palestra no Festival Literário dos Campos Gerais