A VOLTA DO MAESTRO

Todo o povo está reunido na praça central do lugar, apenas esperando o início oficial da festa. É um alarido duplamente feliz - feliz pela festa e feliz porque, depois da festa, a alegria continuará.

Os estranhos habitantes da ilha, que se divertem com seus estranhos esportes, suas estranhas músicas, suas estranhas danças e seus estranhos e hiperbólicos teatros, que vivem sob seu estranho sistema político e compram coisas para suas estranhas casas pagando com sua estranha moeda, estão agora invadidos por uma espécie de alegria simples, nada estranha: em breve, estará de volta um de seus mais estranhos - e importantes - nativos.

É à espera dele que o povo todo se aglomera na praça, para agradecê-lo e festejá-lo. Querem agradecê-lo porque, contando a todos que o seu desconhecido lugar de nascença estava inteiramente perdido no mapa (vagando ao léu, separado do continente por conta de sucessivas explosões nucleares mal sucedidas), acabara deixando a ilha conhecida no mundo inteiro. Perdida em mares inexistentes – mas conhecida. Por isso, querem agradecê-lo.

E querem festejá-lo porque... bem, porque devem mesmo festejá-lo.

O povo aguarda e ninguém se importa com o sol abrasador que invade esta manhã da ilha. As pessoas estão acostumadas, são como flores que desabrocham no sertão - e, afinal, quem derrete no sol é picolé. E mesmo que o sol incomodasse, não seria empecilho: vale ficar aguardando a chegada do maestro, o novo comandante da festa.

Todos já cantam e dançam à espera dele, e só não se acotovelam e batem uns nos outros porque a dança é quase inteiramente imóvel: os dançarinos mexem apenas o pescoço. É necessária uma perícia especial para tal dança que só mesmo os habitantes do lugar possuem –, talvez por isso não seja mais executada no resto do mundo.

Durante anos, o Maestro e seu parceiro foram embaixadores da ilha. Embaixadores honorários, sem receber um único scombrio por isso. Mas o Maestro volta sozinho, agora: seu parceiro ainda fica pelo resto do mundo, imortal enquanto vivo, talvez atuando sozinho como embaixador – vá saber!...
A Esbórnia aguarda em festa. Daqui a pouco, todos enxergarão o barco invisível atracando no seu porto imaginário.

O Maestro Pletskaya já deve estar chegando.

(Os textos publicados nesta coluna são obras de ficção.)


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